[CONVIDADOS] Um Conto de Falhas

quinta-feira, outubro 16, 2014

            Com certeza você é um daqueles que já ouviu a tal piadinha do “minha vida não é um conto de ‘fadas’ e sim um conto de ‘falhas’” ela é mais comum do que muitos pensam, isso porque no mundo em que vivemos encontrar o tal amor é a mesma coisa que acertar na loteria ou ser sorteada na Tele-Sena, quase uma perda de tempo! Eu moro em uma cidade de interior pertinho de onde Judas perdeu as botas, digamos que ele perdeu as botas na cidade vizinha e morreu na cidade onde eu moro, é complicado dizer, e eu não posso culpar alguém de fora que pergunta: “Onde você mora?” e então eu respondo: “Arcoverde” ai ela diz: “Nunca ouvi falar. Onde fica?” Entende o que eu digo? Eu não sei exatamente se é pelo fato de não aparecer no mapa, a não ser que você olhe bem fundo no mapa de Pernambuco, ou se é pelo nome ridículo que ela tem, quer dizer, Arcoverde?  Um arco, verde, que na realidade nem existe nessa cidade. Mas já foi pior, ela se chamava Olho d’água dos bredos e até hoje eu nem faço ideia do que bredos significa.

            Ai você me pergunta: “Ok, senhorita sem nome, o que isso tudo tem a ver com o título dessa droga de livro que eu acabei de pegar por mera curiosidade?”, eu respondo. Primeiro, meu nome é Clara, comum né? Eu sei, minha mãe não era lá muito genial no que dizia respeito a batizar as filhas, isso porque eu tenho uma irmã, a Caren. E segundo, o título do livro tem a ver com o fato de eu ser um completo fracasso quando o assunto é relacionamentos, até porque, tecnicamente, eu nunca tive um. Então, se você pegou esse livro por curiosidade com o nome ou mesmo pelo corpo pelado na capa, não feche agora, continue lendo, quem sabe nós não somos mais parecidas do que parecemos? Na verdade, isso aqui não vai ser um romance, acho que se eu fosse mesmo escrever um romance não se chamaria conto de falhas e sim algo do tipo: Procura-se um amor que goste de gordinhas, não que eu me importe em vestir quarenta e quatro, sério eu já superei isso, mas o fato de explorar esse lado “não romântico” da história é o que vai tornar o que você vai ler suportável, ou não. Relembrar a minha vida de “nãos” não é bem agradável, mas a experiência me ensinou que é a partir do momento que você aprende a lidar com as recusas que se torna forte para perseguir as aceitações, você nunca vai ser cem por cento aceito, nem Jesus foi cem por cento aceito e por mais batido que isso possa parecer enquanto “dito popular” vá por mim, é totalmente verdade. No fim de tudo não importa se você é você mesmo ou uma cópia desgastada e menos atraente da mídia, as pessoas sempre vão te odiar independente disso. Alguns podem chamar isso de bullying,eu chamo de rotina. Então, com o passar dessas páginas você vai me conhecer melhor, conhecer esse cubículo onde eu moro e conhecer o meu fracassado histórico amoroso, mas no que diz respeito a este último, eu tenho ciência de que a culpa é toda minha e logo você vai descobrir por quê.

            Arcoverde é uma cidadezinha no interior de Pernambuco, um lugarzinho meio parado como toda cidade pequena, quando se fala em Pernambuco normalmente as pessoas só conhecem Recife e Caruaru, ou alguma outra cidadezinha “famosa” nos arredores, particularmente eu nunca dei muita bola para a história e a geografia local, tudo que sei sobre o clima daqui é que eu detesto calor e está sempre quente. Insuportavelmente quente. Nasci aqui e já morei em São Paulo quando era bem pequena, mas por ironia do destino, ou por azar mesmo, também foi no interior. Em uma cidadezinha chamada Iguape, acho que no fundo é o meu destino viver enfurnada em fins de mundo. Não há lugares para ir por aqui, as praças não tem a mínima graça e não dão a menor inspiração, o cinema não funciona direito e, mal foi reformado, já entrou em reforma duas vezes de novo. Não há shopping, as lojas são poucas, sem variedade e só há uma livraria, que foi construída aqui bem recentemente, mas os livros são tão caros que o preço com o frete na internet sai mais em conta. É difícil viver aqui, é aquele tipo de cidade que você só fica se for um conformado com a vida que muitos consideram “medíocre” no sentido de não ter nenhum tipo de emoção.

            O destino de quem vive aqui é bem previsível: Casar, trabalhar no comércio (se você não for rico) e ter uma dúzia de filhos que vão te fazer passar vexame em todo lugar que você for. Para que você tenha uma ideia do que falo, as garotas aqui ficam noivas com a mesma rapidez que eles fabricam ou bebem Coca-Cola nos Estados Unidos, e como se vivêssemos no século XV, elas noivam entre os dezesseis ou vinte anos, aos vinte e três já tem pelo menos dois filhos. Eu fico muito feliz em ser uma exceção à regra quando penso nisso. O caso é que namorar nunca foi uma prioridade para mim ou para a Caren, nós sonhávamos com outras coisas e tínhamos outras aspirações na vida: A primeira delas era sair daqui. Mas só para te situar: Continuamos no mesmo lugar ainda. Nossa educação, em um lugar como esse foi sempre a de fazer a diferença, nossa mãe nos ensinou que autenticidade é mais importante do que parecer com a garota bonita da televisão, que estudar é a base para quem quer ter um futuro e a gente deveria querer ter um futuro. Eu particularmente considero que tive a melhor infância, aquela de acordar cedinho para assistir o Pernalonga e passar a manhã inteira vendo desenho de qualidade (hoje em dia só tem robô na televisão), a época de alugar fita de vídeo-cassete e pedir ao papai para gravar para nós, ou mesmo gravar o especial da minha música favorita na fita K-7 quando passava no rádio. As crianças de hoje vivem em um mundo muito superficial, quantas delas sabem apreciar um banho de chuva? Ou mesmo conhecem a diversão de um bom jogo de “fubica” (ou ludo para os estrangeiros), as relações hoje são meio artificiais e mesmo que eu admita achar isso mais cômodo na maioria das vezes, sinto falta de quando a comunicação mais “artificial” que tínhamos eram as cartas e os bilhetes passados de banca em banca na aula de matemática. Com os relacionamentos amorosos não é diferente, as pessoas hoje até se casam pela internet, não é de se estranhar que todo mundo viva reclamando que a vida é um conto de falhas, ninguém mais sonha com o Príncipe Erick (aquele lá da pequena sereia) ou mesmo tem em mente aquele romantismo de Mansfield Park (o livro perfeito da Jane Austen), tudo hoje é sexo e casualidade, como as pessoas podem querer amor de verdade quando a única coisa que dão é prazer e superficialidade?

            Nossa, só agora eu percebi que isso está parecendo aqueles livros de auto-ajuda que as pessoas deprimidas compram para se sentirem um pouco melhores (ou piores) do que já estão... Mas se você pensar bem vai ver que mesmo que discorde de mim, no fundo eu tenho uma parcela de razão, os contos de fadas foram trocados pelos contos de falhas porque as pessoas passaram de acreditar em fadas para ler coisas como The History of O e se você não conhece esse livro eu sugiro que não o procure a menos que seja dotado de extraordinária coragem ou que seja um pervertido mesmo. O meu conto de falhas se deu por razões diferentes da maioria das pessoas, tudo começou quando eu ainda era bem pequena e, se eu pudesse voltar no tempo e mudar as coisas, com certeza eu o faria, por mais que isso me desviasse de conhecer pessoas incríveis, mas desde pequena fui ensinada que Deus nunca faz nada sem um propósito e talvez o propósito dele para mim não tivesse se desenrolado tão bem se eu não tivesse passado por tudo isso, hoje eu vejo esse conto de falhas de maneira mais otimista, até mesmo descontraída, quando você desenvolve a capacidade de olhar para o seu passado e ver que ele te tornou o que você é hoje, e consegue se orgulhar disso mesmo que parcialmente, você tem a prova de que amadureceu. Só que para mim, isso nunca foi considerado um bom sinal.

Saudade dos sete anos...





Sobre a autora:

Katharynny Gabriela. Nordestina que não fala com sotaque. Já passou dos 20, ama ler romances e criar seus próprios universos. Nunca beijou um cara. Gosta de música só um pouco menos do que gosta de livros. Não se considera uma pessoa interessante. Blogueira, aspirante a escritora e editora, cantora de chuveiro, estudante eterna e leitora compulsiva! Autora de Sleeping Beauty: A História Por Trás dos Olhos Fechados, no Clube de Autores e de Um Novo Começo, em breve publicado pela Editora Multifoco.







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