Faça as Pazes com os Críticos

sábado, março 28, 2015


Eu sei. Eu sei como é difícil ler críticas duras. A linha entre a crítica mais séria e o flame consegue ser bem tênue às vezes, mas hoje estou aqui pra ajudar vocês a enfrentar esse medo (ou seria pavor?) em receber comentários negativos.
Para começo de conversa, ao fazermos qualquer coisa, temos que estar preparados para tudo. Faz parte da maturidade reconhecer que assim como temos nossas próprias opiniões e elas são positivas ou negativas, os outros também possuem esse conjunto de modos de pensar, que podem diferir muito ou pouco do nosso. O mesmo direito que você tem que gostar ou não de algo, o outro também tem.
Assim, conviver com os outros em sociedade é saber que tudo o que fazemos e faremos está sujeito à avaliação externa e, como eu já disse em outros posts, ela pode ser bastante positiva, positiva, normal, negativa e incrivelmente negativa. O que você pode fazer a respeito é filtrar com quais opiniões vai se importar ou não, quais vai responder e, principalmente, o que difere os homens dos meninos (ou mulheres das meninas, girl power aqui também), como vai responder a cada uma delas.
Dito isto, é com surpresa que percebo que muitas pessoas, especialmente ligadas à arte (músicos, pintores, escultores, escritores, atores etc.), um ambiente que por si só pressupõe pessoas com uma forma diferenciada de ver e se colocar no mundo, com uma postura de censurar, desmerecer ou mesmo boicotar quem faz qualquer comentário depreciativo.
Enquanto fazia uma breve pesquisa para escrever esse post, me deparei com esse excelente texto do Homo Literatus, em que a autora relata casos de escritores com uma reação bastante questionável a pessoas que não gostaram de suas obras. Um deles chegou ao extremo de ir atrás de uma moça que fez uma resenha negativa de seu livro e golpeá-la com uma garrafa na cabeça.
Ainda retomando o texto, a autora menciona o nosso guilty pleasure preferido, falar mal do que não gostamos com pessoas que também não gostam daquilo e, pelo menos pra mim, lançou uma questão bem interessante: como será que eu me sentiria se alguém quisesse me tirar isso?
Primeira reação seria sair berrando "censura" e "ditadura" por aí (e, se me permitem aqui uma crítica discreta, só vejo falarem isso pessoas que realmente não sabem até hoje como a ditadura realmente funcionou e encaram qualquer conselho como reprimenda). Ora, quem as pessoas pensam que são para me impedirem de falar o que eu penso?
Então gostaria aqui de lançar outro questionamento: quem nós pensamos que somos para tolher a liberdade de expressão do outro?
Alguns virão "mas as pessoas às vezes exageram, falam mentiras e etc". Mas veja bem: tudo o que nós falamos tem consequências. Maturidade também é saber disso. Eu posso falar o que eu quiser, mas tenho que saber que isso vai me trazer uma consequência, seja pessoas se juntando a mim, me jogando pedras, ou mesmo um processo judicial se eu passar muito dos limites e começar a falar mentiras sobre os outros.
O foco aqui não é falar mentiras, imputar crimes ou atitudes que os outros não cometeram. É falar mal, falar que não gostou e que tal obra tem esses ou aqueles defeitos, coisas que são subjetivas. Afinal, tem muitas coisas que eu adoro que as pessoas detestam, e coisas que os outros amam que eu odeio. Quem está certo? Ninguém, só quem tenta censurar o pensamento alheio.
Eu não quero que me tirem o direito de falar mal do que não gosto, por isso não vou me meter no direito dos outros. Num mundo perfeito, todo mundo saberia disso, mas não é o caso, e é por isso que esse e muitos textos semelhantes, como o supracitado, estão aqui.
Vamos adiante.
A cada dia, eu chego à conclusão de que uma crítica é construtiva ou destrutiva não dependendo da forma como ela foi feita, das palavras que foram usadas ou da intenção do crítico, e sim do ponto de vista de quem recebe essa crítica.
Também já me importei demais com críticas negativas. Ficava muito mal ao lê-las. De "reescreve esse lixo" a "volta pra escola e aprende a escrever" já li de tudo. Mas (e devo essa mudança de pensamento à minha betamiga e aos meus professores exigentes da faculdade) comecei a perceber que ninguém aprende nada só com elogios. Quanto mais dizem que tá tudo perfeito, mais a gente começa a internalizar isso e vai se acomodando, por mais que ninguém admita. Já com uma crítica, a gente procura melhorar, evoluir e dar tudo o que temos para fazer melhor do que fizemos da última vez (nem que seja pra esfregar na cara dos outros, no caso dos mais vingativos).
Claro que o primeiro posicionamento nosso nunca é "beleza, vamos refazer". A crítica nos tira da nossa zona de conforto, coloca o dedo na ferida, joga na nossa cara as merdas que fazemos, por isso incomoda e machuca tanto. Mas se você souber respirar fundo, procurar se avaliar e começar a definir estratégias para mudar o que precisa, pensar no que estudar, praticar e todo o resto, verá que muitas vezes mesmo a crítica mais ferrenha pode ser a melhor coisa que já lhe aconteceu.
Não quero com isso dizer que sou melhor ou mais evoluída do que quem ainda não pensa assim. Ainda tenho meus problemas em aceitar certos posicionamentos, ainda brigo para defender algumas ideias indefensáveis pelo simples motivos de serem questões de gosto. Mas considero isso um grande passo e fico feliz por ter mudado, afinal esse posicionamento só iria me prejudicar, tanto pessoal como profissionalmente.
Hoje estou aqui não para apontar o dedo na sua cara e dizer que você precisa mudar (quem eu penso que sou pra isso?), apenas quero apresentar um caminho a quem já cansou de arrancar os cabelos e gastar horas e horas em discussões que não vão a lugar nenhum ou quem quer parar de se importar negativamente com opiniões mais ácidas e quer extrair delas o melhor possível.
Vamos lá, o que está aqui me custou muitas lágrimas, brigas, bloqueios, perdas de contatos e noites mal dormidas para que eu pudesse aprender. Estou dando isso a você de graça, então aproveite.


# Aprenda mais sobre você mesmo:
Se conheça bem, saiba o que você sabe fazer direito, no que você ainda precisa melhorar e o que te diferencia dos outros. Conheça também suas ideias e seu interesse com determinado trabalho. Tendo consciência de tudo isso, você pode filtrar melhor as críticas que chegam.
Tem coisas que até seriam interessantes se você fizesse no seu livro, por exemplo, mas acabaria dando um desdobramento que não é o que você quer no momento. Alguém critica algo que você já sabia que não estava muito bom, aí você percebe que precisa reforçar seus estudos naquela área ou pedir ajuda a alguém que considera bom naquilo.
De repente, a pessoa não gosta de determinado gênero, então coisas que são comuns a ele, ela pode achar que são bobagens, forçações, ou clichês. Será que a crítica não veio por que o gosto do seu leitor é diferente?
Ou talvez alguém tenha falado mal de algo que você achava que fazia bem, então é um bom momento pra se autoavaliar: será que está bom mesmo? Ou eu tenho que melhorar mais?
Acho até que vou estender a dica. Conheça bem você e também o seu leitor. Conhecer, saber do que aquela pessoa gosta, o que ela costuma ler, o que ela costuma avaliar mais num texto, etc... É fundamental para que você possa saber em qual dos 3 tipos de crítica acima ela se encaixa.

# Saiba exatamente o que a crítica quer dizer:
Vejo, especialmente entre escritores, pois estou mais inserida no meio deles, a forma como autor e obra acabam se misturando na maioria das vezes. Pergunte a qualquer um deles seus sentimentos a respeito de seus livros e duvido que não ouça um "amo como um filho" ou "é um sonho se realizando" e coisas do tipo. Esse excesso de apego é bastante comum, mas prejudicial. Acaba dando a ideia de que a obra é uma extensão do autor e, por consequência, qualquer crítica à ela é também uma crítica direta à pessoa que a fez. Mas não é bem assim.
Quando alguém diz que seu texto é imaturo, entenda que o que essa pessoa quis dizer é que seu texto precisa amadurecer mais, não você necessariamente. Quando alguém escreve que seu texto não acrescenta nada de novo, ela não quis dizer que você é um inútil, apenas que seu texto poderia ser mais inovador. Tudo depende da lente que você usa pra ver o mundo.
Mesmo que alguém diga que o texto tá um lixo, você escolhe a forma como quer ver as coisas. Tanto pode escolher se ver como alguém que fracassou e desistir, como se aquela pessoa fosse uma filha da puta e devesse ser silenciada, ou pode perceber que simplesmente se apressou demais e não deu tudo o que tinha naquela obra.
Na pior das hipóteses, a pessoa te chamou de lixo, fracassado e disse que seu livro é desperdício de tempo e árvores. Na melhor, ele disse que você é muito bom, mas acabou confiando tanto em si mesmo que acabou se apressando e publicando/postando algo que nem parece seu.
Tá vendo como tudo depende de você?

#Aprenda como responder esses comentários:
Serenidade sempre, por mais que a pessoa tenha sido ácida. Se for preciso, não responda na hora, mesmo porque toda reação impensada que nós temos tende a ser explosiva. Feche a página e vá arejar a cabeça. Faça exercícios, lave louça, cuide dos seus filhos ou bichinhos de estimação, ouça suas músicas preferidas, veja algum seriado legal, leia um bom livro e respire fundo várias vezes.
Aqui vem a importância do que falei lá em cima. Conheça seu crítico - pelo menos, tente. Muitas vezes a pessoa acaba criando muitas expectativas sobre seu texto, tem um gosto muito diferente do seu ou simplesmente valoriza outras coisas numa boa leitura. Cabe a você filtrar aqui todas as opiniões que chegam, saber se a crítica parte de alguém que quer realmente ajudar, de alguém que quer mais é que você desista ou se é somente uma pessoa que está em uma faixa diferente da sua.
Só então responda.
Peça mais dicas e sugestões a quem quer ajudar você ou procure debater com a pessoa que esperava outra coisa na tentativa de compreendê-la melhor e ajudá-la a entender qual era sua real intenção com a obra em questão. Já se a pessoa só quer que você desista, faça exatamente o oposto.
Mas agradeça a todos sempre.

E por último, mas não menos importante:

#Pratique e evolua.
Você já leu a crítica, identificou que a pessoa ofereceu dicas e sugestões interessantes e já sabe exatamente onde errou e onde ainda pode melhorar. O que fazer?
Volte ao texto e comece a formular estratégias para melhorar os pontos que ainda estão fracos. Pode ser que uma leve reescrita resolva, talvez você tenha que mexer mais profundamente na obra. Uma pequena pesquisa pode ser suficiente, ou de repente é melhor colocar o texto em si de lado por um tempo e estudar mais profundamente, seja algum aspecto mais técnico (diferentes formas de escrever diálogo, melhorar pontuação, ortografia e gramática, etc.) ou algo mais criativo mesmo (escrever a cena de outra forma, aprofundar o personagem, mexer no enredo, melhorar no diálogo, etc).
É fundamental que você tenha em mente que:
a) O texto nunca fica bom logo de cara
b) Você vai ter que revisá-lo e alterá-lo mais cedo ou mais tarde
e c) Muitas vezes é preciso reescrevê-lo muitas e muitas vezes até chegar a um ponto em que ele esteja apresentável (veja bem: APRESENTÁVEL, não bom).
Cito aqui meu próprio exemplo: estou trabalhando no meu primeiro livro desde 2010 e já reescrevi o roteiro inteiro três ou quatro vezes e fiz mais de cem pequenas alterações entre as reescritas. A primeira cena do livro já foi reescrita mais de vinte e cinco vezes antes de ficar razoavelmente bonitinha e ser mandada para o beta-reader principal (dessas, 18 na última semana do prazo e depois de passar por outros dois betamigos). E é quase certeza que eu ainda vá reescrevê-la outras vinte e cinco até chegar à versão final.
Contei pra vocês que por causa dessas três leituras críticas resolvi acrescentar coisas e talvez tenha que reescrever o plot todo pela quarta ou quinta vez? POIS É.
O crítico não é seu inimigo. Pelo contrário. Entre ler que você está abaixo do seu nível de qualidade e precisa sentar e elaborar melhor suas ideias no começo ou que seu livro é muito ruim quando está publicado e você não pode fazer mais nada para resolver o problema, prefira a primeira opção.
E caso seja somente mais um hater, a resposta é simples. Não se desespere e desista. Isso é justamente o que essas pessoas querem. A melhor resposta é ser educado, agradecer a crítica e extrair dela o melhor possível. Nada vai revoltá-lo mais.
Por último, também não vou iludir você. Sempre vai existir quem critique. Por mais que você melhore, nunca será perfeito. É impossível agradar a todos. Mas mudando sua postura ao receber essas opiniões negativas e procurando sempre evoluir, a jornada ficará bem fácil.
Agora levante daí, seque essas lágrimas, dê as mãos a seu crítico de bolso, ouça o que ele tem a dizer e melhore. Escrever é 10% talento e 90% trabalho. Você vai ter que percorrer um longo caminho de qualquer jeito, mas o fardo ficará mais leve quando você descobrir que não precisa ir sozinho e tem alguém para apontar o norte e lhe empurrar para seguir em frente.
Aproveite. Muita gente não tem essa sorte.

2 comentários:

  1. Oi.
    Gostaria de te parabenizar pelo ótimo texto.
    Escrever sobre as críticas caiu como uma luva para mim, pois me fez lembrar de quando eu estava no cursinho (aula de redação), e meu texto ficou entre os 3 melhores da turma (no data show foram ocultados os nomes, mas eu sabia que era o meu pela técnica).
    O meu texto ficou em terceiro, era uma narração-descritiva. A professora foi um pouco cruel na crítica ao meu texto porque naquele instante tive a impressão de que era a pior escritora do mundo todo e nunca seria lida por ninguém, fiquei vermelha de vergonha feito um pimentão, tive vontade de chorar na hora (chorei de raiva depois da aula), mas depois que me acalmei, compreendi que o que ela tentou me dizer não foi por maldade, com a intenção de me desencorajar.
    Em função disso, depois de reler alguns textos antigos e perceber se ela não tinha razão, comecei a corrigi-los, percebendo se não repetia palavras, se eu realmente mergulhava fundo nos temas que me propunha a abordar. Melhorei muitíssimo a minha técnica e ampliei bastante minha argumentação, então acredito que apesar de eu não ter interpretado à época, foi um bom conselho.
    Aliás, um conselho que vou levar para toda a minha vida.
    Se um escritor ficar acomodado com os elogios, nunca terá ânimo de inovar, de se aprimorar, de provar a si mesmo que pode se arriscar, aprender muito com as pesquisas, enfim, amadurecer. Recebendo apenas elogios fofos, ficará envaidecido e um pouco intolerante com as críticas, como se o fato de alguém fazer uma leitura mais apurada do seu trabalho estivesse necessariamente o atacando pessoalmente.
    No caso das pessoas que levam para o lado pessoal, como aconteceu na semana passada comigo, o jeito é respirar fundo e responder com educação. Nada deixa um hater mais indignado do que dirigir-se a ele com respeito.
    No meu caso, já perdi a conta das vezes que reescrevo meus textos. Sou a minha maior crítica e isso me prejudica um pouco porque tenho medo de deixar, por exemplo, a minha família ler. Acredite ou não, eu ainda não tive coragem de mostrar minhas histórias para a minha mãe por medo.
    Espero que a postagem de hoje seja pertinente para muitos autores e os auxilie a lidarem melhor com as críticas e fazerem delas um grande aprendizado em todos os sentidos.
    Mais uma vez, parabéns pela postagem!
    P.S. - Desculpe-me pelo comentário enorme.

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  2. Se temos que agradecer aos críticos, também temos que agradecer aos aconselhadores. Muito obrigada.
    Estou em processo de aperfeiçoamento de minhas redações e em toda correção há um novo (ou antigo) erro. Melhora um, piora outro: é o que parece. Mas não é assim. Estamos sempre em processo de melhora. Não se pode desanimar. É praticar, continuar. A perfeição não é um ponto a se chegar, mas sim dar o melhor de si.

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