[RESENHA] As Crônicas Vampirescas

sexta-feira, maio 29, 2015




As Crônicas Vampirescas é um conjunto de obras escritas por Anne Rice que narra a vida de vários vampiros. Nos três primeiros livros (os que eu li), a história é focada nos vampiros Louis de Pointe du lac e Lestat de Lioncourt, contando também a história de outros vampiros, como Cláudia, Marius, Armand, etc.
A primeira obra, Entrevista Com o Vampiro, foi escrito em uma semana, segundo a autora, após a morte de sua filha, que foi retratada na personagem Cláudia. O livro conta a história de Louis, que atraído por um jornalista resolve contar a ele a história de sua vida, cerca de 200 anos. Escrito com um jogo de linguagem interessante (nunca havia lido um livro com essa estrutura), a obra faz uma mistura de primeira e terceira pessoa. A história começa na forma de terceira pessoa, com o vampiro Louis e o repórter em um quarto de motel, onde de certa forma é o único cenário da trama. A partir de então, o vampiro inicia uma série de monólogos que são interrompidos apenas por rápidas perguntas do repórter. Analisando sob a perspectiva da terceira pessoa, todo o livro se passa no quarto de motel, com dois personagens sentados conversando, mas analisado pela primeira pessoa nos diálogos de Louis, viajamos no tempo, por vários países e conhecendo outros fantásticos personagens.
O livro é focado em Louis, com seus conflitos existenciais e, mesmo durante os fatos marcantes do enredo, como quando ele é transformado em vampiro, ou quando ele e Lestat transformam Cláudia, uma criança de cinco anos, tudo serve apenas para entendermos as mudanças na personalidade Louis, quando pouco a pouco ele acredita perder sua humanidade, enquanto faz sua busca por vários países para encontrar outros vampiros e entender o motivo de sua existência e da de sua espécie, questionando até mesmo a religião e a dicotomia entre bem e mal.

No segundo livro da série, O Vampiro Lestat, a primeira pessoa domina a obra. No enredo, o jornalista que entrevistou Louis publica o livro “Entrevista Com o Vampiro” e Lestat o lê. Como na primeira obra ele aparenta ser um vilão, o vampiro decide escrever sua autobiografia para esclarecer as confusões acerca dele, enquanto entra para uma banda de rock, planejando se tornar um astro e chamar a atenção de todos os vampiros. Aqui, com uma estrutura semelhante à de Dom Quixote, os personagens se tornam leitores, deixando turva a linha que separa a realidade da ficção e criando um paradoxo que parece ser infinito (O livro fala do mesmo livro, que por sua vez também deve falar dum livro, e assim por diante, como numa trajetória circular sem fim).
Ele possui uma narrativa mais leve e menos conflituosa que o primeiro. Mas isso se deve ao fato de Lestat ser um personagem mais carismático que Louis. Com uma personalidade impulsiva e uma maneira mais simples de observar o mundo, ele encara seus conflitos de forma mais simples. No começo, fiquei receoso de não gostar do livro, já que havia me apaixonado pelo clima pesado do primeiro e das reflexões que podiam até te deixar confuso. Mas “O Vampiro Lestat” ainda consegue manter esse clima gótico, e mesmo que de forma um pouco menos direta, também mantém as buscas do protagonista para entender a si mesmo e esse novo mundo a sua volta.

O terceiro livro, A Rainha dos Condenados, começa a partir de onde o segundo terminou. Mas desta vez, embora Lestat ainda seja o narrador, Anne Rice busca novamente uma nova estrutura para a obra. Agora, além da primeira pessoa de Lestat, ela escreve em terceira pessoa sob múltiplos pontos de vista, mostrando a perspectiva de personagens já conhecidos e alguns novos.
É um bom livro, mas me deixou receoso para continuar a leitura das crônicas. Nele, ela abandona o foco nas buscas internas dos personagens. Mesmo ainda lendo sobre os conflitos de Lestat e breves momentos sobre a forma de pensar de outros personagens, a ação predomina no enredo, revelando a história dos vampiros, de sua criação, e fechando o arco com a rainha Akasha, a primeira vampira. Mesmo com os diferentes pontos de vista, nenhum novo personagem foi aprofundado, conseguimos compreender razoavelmente a personalidade de alguns, enquanto outros tiveram pontos de vista tão rasos que poderiam tranquilamente serem retirados da história. A obra é bem trabalhada, mas para aqueles leitores que, como eu, se apaixonaram pela forma como os personagens eram aprofundados, por suas buscas, medos e sonhos, isso pode acabar se tornando algo ruim.
De modo geral, as Crônicas Vampirescas são as melhores histórias de vampiros que já li (Ainda preciso ler “Drácula”, do Bram Stoker, para realmente dar um veredito). E aconselho a leitura, principalmente pela forma que Anne Rice consegue gerenciar a obra. Ela encontra um equilíbrio interessante em cada aspecto da obra. Sua linguagem é excelente, a forma poética com que descreve até os menores detalhes, os personagens são bem trabalhados (Com exceção de dois que não me agradaram) e os mistérios são realmente empolgantes. Ela consegue unir esses pilares de forma harmoniosa, onde embora nenhum tenha um destaque muito grande, nenhuma parte é desprezada.
Mesmo com minhas críticas ao terceiro livro, decidi ler todas as obras publicadas pela autora para que eu possa compreender completamente a forma com que ela escreve. Assim, em breve devo fazer uma resenha com o resto das Crônicas Vampirescas e uma outra saga dela, as Bruxas Mayfair.
Quanto aos filmes baseados nas obras, digo o mesmo que muita gente já falou. O Entrevista Com o Vampiro é ótimo, foi ele que me motivou a ler os livros. Já o Rainha dos Condenados é uma bosta, e se você também não aguenta de curiosidade para saber o quão ruim ele é, faça como eu e leia o terceiro livro primeiro, assim pelo menos o filme não estraga a experiência da leitura.



Meu nome é Victor Hugo de Oliveira Rezende. Tenho 20 anos. Faço faculdade de Direito e gosto de ruivas (naturais). Escrevo desde o ano em que fui alfabetizado (fiz um conto sobre uma bruxa, a diretora chamou meus pais preocupada comigo, foi engraçado). Mas aos 14 anos comecei a levar a sério e comecei meu primeiro, que só terminei há alguns dias.

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