Guia Prático de Como Fazer uma Boa Fanfiction: O Que um Beta Reader Deve Procurar numa História

domingo, agosto 16, 2015


Há vários estilos de crítica e diversos métodos de revisão, claro. O que vai mudar de um pros outros são mais questões como do que o beta pretende se focar, estilo de história, tamanho, etc. Há betas que procuram mais observar questões linguísticas (problemas de ortografia e gramática, pontuação, figuras de linguagem, estilo, etc.). Outros preferem se focar na estrutura do enredo. Um terceiro grupo dá prioridade aos personagens, e por aí vai. Obviamente, você também pode encontrar um beta generalista, que cuide de tudo isso de uma vez, mas nada impede você de ter mais de um se achar necessário.
No post de hoje, vamos tentar fazer um apanhado geral do que um beta normalmente observa numa história e compreender de forma mais efetiva porque ele é um agente importantíssimo na construção de uma boa história. Esta lista é apenas um esquema para auxiliar, não um conjunto rígido de regras. Até porque pouquíssimas pessoas tentarão responder a todas estas questões. Também não acredite que um beta imprime a lista a seguir e sai respondendo as questões uma por uma. É algo meio inconsciente também. Às vezes uma história não se mostra interessante para nós em um ponto, mas não sabemos exatamente apontar qual.
O roteiro também pode servir para autores que querem melhorar suas histórias e fazer uma revisão mais profunda, mas já aviso que isso não substitui um beta. A leitura de uma terceira pessoa que tem o devido afastamento do texto é muito mais efetiva para encontrar erros do que os olhos de quem já está “viciado” com aquela história, sabe tudo o que acontece e também o que quis dizer.
Mas vamos lá que o caminho é longo.


Coisas para Procurar ao Revisar uma História

A. Abertura
As primeiras frases ou parágrafos atraíram sua atenção? Eles apresentam o bem a história?

B. Conflito
Não é necessariamente um monte de ação. É a disputa mental ou moral provocada por desejos e objetivos incompatíveis. É o tipo de conflito que deixa uma história viva. Conflito emocional é parte do que deixa os leitores interessados, por exemplo: amor x lealdade; medo x desejo; vingança x dúvida. Há algum conflito emocional dentro do personagem principal ou personagens principais?
O trabalho do autor é ser um criador de problemas, criar um grupo de problemas a partir de outro. Há conflitos demais ou insuficientes? Há conflitos o suficiente entre os personagens? É expresso por meio de ações, diálogos, atitudes ou valores? Há contraste entre eles? Eles têm o potencial de transformar uns aos outros?

C. Enredo
O enredo principal é claro e plausível? Apresenta clichês em excesso?
O protagonista tem um problema claro a resolver? Ao final, esse problema é resolvido ou o personagem decide viver com ele?
Você consegue determinar o local e tempo da ação rapidamente?
Há cenas que não aprofundam o enredo?
Há flashbacks excessivos, que desviam sua atenção? Há flashbacks que mostram cenas desnecessárias, que não apresentam nada ao enredo?
Se for um texto curto, há excessivos subenredos? Se for um romance, poderia ter mais atenção aos subenredos ou ter mais, ou ainda há enredos secundários demais e a história fica confusa?
Todo enredo secundário é útil? Acrescenta à história geral ou pareceu que o autor colocou apenas para aumentar a complexidade?
Ritmo: O enredo principal e os secundários fluem com velocidade suficiente para manter a atenção do leitor? A história está muito arrastada? Muito rápida?
Resolução do conflito: O conflito e tensão têm um final razoável? Ou o autor deixa tudo “no ar”, com o leitor se perguntando o que aconteceu? No final, ainda há coisas que precisam ser explicadas? Se o autor deixou algum conflito não resolvido, há alguma indicação de que haverá histórias futuras?
Você seria capaz de apontar rapidamente a melhor parte da história? E a pior?

D. Cenário
Há descrição suficiente do pano de fundo para pintar uma imagem que parece real o suficiente para o leitor? Você sente que foi transportado para aquele local e tempo?
Há descrição excessiva, tendendo a entediar os leitores modernos?
O autor usa bons nomes de pessoas, locais e coisas? Os nomes ajudam a dar o tom da história? Alguns nomes são inconsistentes com os personagens? Algum nome estereotípico?
O autor o convence de que as pessoas daquele local ou tempo agiriam daquela forma?
A ordem dos eventos é consistente?

E. Caracterização
As pessoas parecem reais? Ou são estereótipos ou personagens planos, de uma face? O leitor pode se identificar com eles?
Os fatos sobre os personagens são consistentes e acurados?
As pessoas não vivem no vácuo. Elas têm famílias, amigos, trabalho, preocupações, ambições, etc. Você tem algumas dessas informações sobre os personagens principais?
Há personagens que parecem inúteis, deslocados ou inadequados na história?
Tem uma imagem da cultura, período histórico, localização e ocupação do protagonista? Percebe os paradoxos, emoções, atitudes, valores?
História prévia: Fica distraído pelo excesso de informação passada de uma vez sobre algum personagem? Ou conhecemos esse personagem aos poucos?
O personagem passa por alguma mudança na história? Essa mudança pode deixar os leitores confusos?
A história poderia ser melhorada se fossem adicionados mais detalhes sobre crenças, comportamentos, relações com outras pessoas, hábitos, habilidades, gostos ou mesmo descrição física?
Cada capítulo tem descrição sensorial suficiente? O leitor consegue perceber o que está acontecendo fisicamente ao personagem? Há termos de sons, toque, cheiros e gostos?
Se a história usa um antagonista, ele parece real também? Ou parece apenas malvado e cruel? Ele tem qualidades redentoras também? O vilão é um herói em sua própria mente?
Todo leitor tem seu próprio gosto de quanta caracterização ele gosta. Esse texto tem pouca ou demais para você?

F. Diálogo
As palavras que saem das bocas dos personagens são consistentes com suas personalidades?
Há diálogo demais ou de menos, em sua opinião? O mais comum é ter de menos. Algum personagem tende a fazer longos monólogos? Se sim, isso é importante para a história, para mostrar a personalidade dele ou para oferecer boas informações, ou é desnecessário e entediante?
Você consegue perceber o conflito, atitudes e intenções de cada personagem sem o autor ter que te dizer diretamente? Consegue detectar qualquer troca de poder?
O diálogo parece fácil de falar? Você consegue “escutá-lo”?
O diálogo se parece excessivamente com conversa normal, com muitas frases incompletas, pausas, recomeços, clichês? É um distrator?
O autor usa dialeto muito pesado, difícil de ler? Cada personagem tem seu próprio ritmo de falar, sotaque, vocabulário e extensão das frases?
Você consegue visualizar o local da cena, os sentimentos e as interações dos personagens enquanto eles conversam?
Você consegue diferenciar quem está falando se não tiver seu nome citado?

G. Cenas:
Cada gênero pede uma forma diferente de narrar. As cenas da história passam o clima adequado a seu gênero? Ou há algo que não casa bem (excesso de cenas de comédia em histórias de terror, excesso de drama em histórias que deveriam ser engraçadas, etc.)? Há algum tipo de clichê próprio desse gênero?
As cenas estão muito intensas ou passam pouca profundidade? Elas estão chatas? Há cenas que poderiam ser excluídas inteira ou parcialmente sem prejuízo ao todo da história? Elas estão muito rápidas ou muito lentas?
A forma como as cenas estão ligadas também faz diferença para a qualidade e compreensão da história. As cenas são apresentadas em uma sequência lógica? Elas fluem naturalmente ou aparentam ser cortadas de forma brusca? O clima da história é mais sufocante ou parece tudo muito leve e calmo? Uma mudança de ordem de cenas poderia equilibrar a tensão/alívio ao longo da história?
Há flashbacks na história? Eles parecem estar inseridos no momento certo? Eles apresentam algo útil do passado do personagem ou não fazem diferença?
As cenas estão repetitivas? Elas parecem plausíveis? É fácil de compreender o que está acontecendo sem precisar reler trechos?
Há descrições de ambientes, personagens, etc.? Elas estão muito longas? Muito curtas? Poderiam ser retiradas? Estão repetitivas? Auxiliam na compreensão do que está havendo ou distraem o leitor da ação?

H. Ponto de Vista
Cada seção ou capítulo é escrito a partir de um ponto de vista apenas? Há pontos de vista demais na história?
A história varia entre narração em primeira e terceira pessoa? As mudanças foram assinaladas claramente? Você conseguiu perceber de quem é o novo ponto de vista rapidamente?
Se for usada terceira pessoa, é narrador onisciente ou limitado? Ou o autor misturou? A escolha foi adequada?

I. Mostrar ao invés de contar
O autor descreve o que os sentidos do personagem indicam?
O autor descreve exatamente como as pessoas agem?
É usada linguagem muito abstrata onde detalhes específicos teriam um maior impacto?
Termos como ‘muito’, ‘bastante’, ‘bom’ e ‘ótimo’ são usados em excesso, onde uma descrição mais detalhada teria sido mais rica e interessante?
O leitor perde a oportunidade de interpretar o que os personagens sentiam e o autor conta diretamente?

J. Formatação do texto
É fácil de ler ou os parágrafos estavam muito extensos, ou com linhas muito longas (pouca margem)? Ajudaria pular linhas entre os parágrafos?

K. Gramática e Ortografia
Há muitos erros de concordância, acentuação, pontuação entre outros? Há muitos erros de digitação? Há tantos erros que a leitura ficou difícil?
O autor usa excesso de pontos de exclamação?
Há muitos clichês na narrativa?
O autor usa melodrama? Por exemplo “com lágrimas nos olhos, e quase incapaz de falar, a moça pegou o telefone para dar a notícia.”. Às vezes drama pode ser uma boa pedida, mas demais pode prejudicar a história. Pense nisso.

L. Estilo
Você pode querer comentar sobre o estilo que a história foi escrita: humorístico, dramático, poético, etc.

M. Histórias curtas vs. romances
Quando criticar um texto mais curto lembre-se que cada palavra conta. Há palavras ou frases que não contribuem para a história e poderiam ser retiradas ou substituídas?
Tem enredos secundários demais? Em textos curtos, um enredo secundário, tudo bem, mais do que isso é exagero. Romances, por outro lado, permitem mais espaço para expressão, conversa, detalhes e nuances.
O autor exagera em flashbacks?

N. Final
O final é capaz de deixar o leitor satisfeito?  Todas as perguntas foram respondidas? Caso não, isso é intencional, ou talvez algum problema da escrita do autor?


A ideia não é esgotar o tema. Na verdade, existem muitas perguntas além dessas que poderiam ser feitas (e geralmente são). Também não basta simplesmente responder meros “sim” e “não”. Para se construir um panorama geral da história, é preciso que haja justificativas plausíveis para cada aspecto negativo ou positivo observado na história. Só assim é possível apontar sugestões, quando necessárias.
Como meros leitores, nós podemos simplesmente gostar ou não de algo, mas como betas, precisamos explicar porque certo aspecto da história parece estar ok ou não, caso contrário se torna complicado auxiliar o escritor a melhorá-lo se for preciso.
Espero ter ajudado. A terceira e última parte do post sobre betas está quase pronta.

Vejo vocês semana que vem :D

2 comentários:

  1. Nossa! Essa postagem é incrível! Excelente não apenas para betas, mas também para autores. Dei uma lida rápida e estou impressionada! Em breve lerei com mais calma e tentarei absorver ao máximo. Obrigada.

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  2. Eu sempre, tipo, sempre quis ser um beta. Não apenas por admirar o trabalho dessas criaturinhas admiradas, mas porque eu acho que eles contribuem e muito pra história. Tentei ser beta uma vez, a fulaninha até virou minha amiga... Mas não rolou porque ela não seguia sequer as correções ortográficas e me forçava a ler as baboseiras insípidas que escrevia (se eu tenho raiva? imagina. Fui forçada a ler BDSM mesmo especificando que o gênero me dá nojo)

    Mas enfim, o post está uma beleza. Mesmo que você não use um beta dá pra dar uma analisada na história com essa estrutura aí :3

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