Guia Prático de Como Fazer uma Boa Fanfiction: Dicas para Construir um Enredo

domingo, março 13, 2016
Esse post era para ter sido publicado domingo passado, mas achei melhor adiar para fazer algumas melhorias e acrescentar algumas coisas. Peço desculpas pelo atraso e espero que gostem ;)



Enredo é a história em si, a chamada trama da história, o decorrer das ações dos personagens. Por isso, é vital que você o construa e planeje o melhor possível: se ele não for bom, grandes chances de sua história desmoronar, não ir pra frente como deve, não parecer convincente, etc.
Por esses e muitos outros motivos, construir bem um enredo é uma das tarefas mais difíceis pra quem escreve. Quanto mais tramas e maior o tamanho da história, mais cuidado você vai ter que ter para amarrar tudo e não deixar pontas soltas (a não ser que a ideia seja deixar essas pontas soltas para uma continuação, por exemplo).
Basicamente, ao criar uma história, você deve ter cuidado com clichês em excesso (porque, no fundo, nunca escapamos totalmente deles), falas forçadas, personagens inexpressivos, mistérios em excesso, em escassez ou sem solução, cenas ou diálogos que não se encaixam em determinado contexto, e por aí vai.
Algumas sugestões que parecem pequenas podem fazer toda a diferença na hora de planejar e executar o enredo:
Defina sua trama principal: todas as histórias têm uma “coluna vertebral”, aquele problema que a guiará o tempo todo e só se resolverá definitivamente no final. Pense sobre sua história. Qual é a principal pergunta que precisa ser respondida ao final dela? Com isso em mente, puxe outros questionamentos. Como você pretende resolver? Parece uma solução convincente? Há pontas soltas? Você deu pistas ao longo da história para o leitor “pegar” ou a resolução parece ter caído do céu magicamente? Pense sobre isso com cuidado até ter respostas que lhe pareçam boas. Só então passe adiante.
Defina suas subtramas: duas coisas importantes sobre subtramas é que a) quanto menor sua história, menos plots secundários ela deve ter; e b) quanto mais subtramas, mais cuidado você vai precisar ter ao amarrar tudo e solucionar os conflitos gerados. O primeiro ponto refere-se ao fato de que se sua ideia é criar uma one-shot, conto ou história curta, colocar muitas histórias paralelas pode acabar deixando seu texto muito maior do que você espera ou dificultando uma conclusão satisfatória de todos os problemas. E o segundo diz respeito à necessidade de se organizar para não esquecer nada, não deixar nada para trás na hora de concluir sua história e resolver todos os problemas criados ao longo dela. Daí vem a importância do próximo ponto...
Planeje-se: muitas pessoas pensam que é preciso planejar tudo nos mínimos detalhes,  talvez por isso haja tanta rejeição à ideia do plot, mas há várias maneiras de fazê-lo, só escolher a que mais lhe agrada. Você pode fazer um esqueleto geral de sua história como se estivesse contando-a para alguém (um texto com o início, meio e fim de sua história, contando tudo o que pretende abordar nela; o nível de detalhes vai depender do que fica melhor pra você). Também é possível fazer um resumo capítulo a capítulo (de novo com o nível de detalhes variando de acordo com o que você preferir). Você também pode simplesmente listar todos os conflitos que pretende abordar, a solução e quando pretende resolvê-los, misturar esses métodos e criar o seu próprio, ou mesmo planejar tudo detalhadamente. O importante é ter em mente que colocar ideias no papel ajuda muito a organizá-las e quanto mais subtramas, mais você vai precisar registrá-las, ordená-las e saber como resolvê-las de forma satisfatória para seu leitor.
Cuidado com clichês: é impossível escapar totalmente deles, mas pesquise sobre os clichês específicos dos gêneros que você escreve e tente dar uma nova roupagem a eles, mudando algum ponto e surpreendendo seus leitores. Quanto mais preso a clichês você ficar, mais seus leitores terão a sensação de que já sabem como tudo termina, o que mata a graça de acompanhar uma história até o fim, especialmente quando ela é muito longa.
Foque-se em um ou dois gêneros: lembre-se das séries de TV e filmes, que por mais que abordem várias temáticas interligadas, sempre possuem um gênero ou estilo que se sobressai aos outros e determina todo o tom da história. Isso é fundamental para atrair um nicho específico de leitores, para facilitar seu trabalho na hora de divulgar e, sobretudo, na hora de decidir a linguagem que será usada ao escrever. Imagine só uma história de romance que se pretende ser leve com uma linguagem muito sombria e carregada? Acaba passando uma imagem totalmente errada do que você pretende abordar. Você quer que o leitor fique ansioso pela junção do casal, mas a única coisa possível de esperar é um psicopata invadir a casa e cortar a cabeça de todo mundo que encontrar pela frente.
As histórias precisam ter um objetivo: nem que seja só mostrar a angústia que o personagem sente pelo término de um relacionamento ao escrever uma carta ao ex, nem que seja o seu personagem lutando para conseguir um copo de água. Ao final da história, o leitor precisa entender o que seu personagem queria para poder saber se esse objetivo foi alcançado ou não. O que seu personagem mais deseja? E o que você pretende contando essa história? Também é importante pensar sobre isso antes, durante e depois da escrita.
As cenas precisam levar sua história adiante: tanto faz se a cena vai descrever um personagem, um ambiente, contar algo que aconteceu no passado, mostrar uma ação, contar reflexões do personagem sobre algo que passou ou sobre uma decisão que ele ainda pretende tomar. O que quer que aconteça na sua história, o leitor precisa ter a sensação de que não está perdendo tempo, de que a história não está andando em círculos, de que você o está enrolando. Em outras palavras, pense sobre cada cena que você já escreveu ou pretende escrever para essa história: ela mostra algo importante, ela ajuda a história a avançar e tem a função de expor coisas fundamentais para a compreensão da história? Ou você sente que ela só está ali porque você “gostou dela” e não quer tirá-la, mas na verdade ela não apresenta nada de novo ou não avança com a história? Se for esse o caso, escrever também é praticar a arte do desapego. Corte-a sem dó. Mas veja bem...
Não apague nada: separe uma pasta no seu computador ou uma gaveta (para quem escreve a mão) e guarde tudo aquilo de que você não vai precisar agora ou as histórias que você desistiu de escrever por algum motivo. Futuramente, você pode amadurecer essas ideias/histórias e continuá-las ou usá-las numa nova história.
Tome cuidado para passar a emoção desejada na cena: se a ideia é ser uma cena triste, dramática ou assustadora sem “escapes” ou alívios cômicos, não cabe fazer piadas. O contrário também vale. Se a ideia é ser uma cena leve e descontraída, não há necessidade de pesar a mão na emoção ou linguagem. Ao planejar seu enredo, também é interessante pensar o que seus personagens vão sentir em cada cena e o que você quer que o seu leitor sinta conforme acompanha a história. Medo, raiva, angústia, alegria, tristeza, tensão, tédio... Há um número enorme de emoções, explore-as e use-as a seu favor. Leia livros com cenas parecidas e veja alguns bons filmes ou séries para ajudar a pegar o clima. Também é importante equilibrar as cenas tranquilas com as de maior apelo emocional, assim o seu leitor não fica numa calmaria desinteressante nem numa ligação emocional desgastante com o seu texto.
Mostre, não conte: esse é o erro mais comum e mais difícil de consertar, porque é algo meio automático simplesmente dizermos que nosso personagem está nervoso ao invés de dizer características que mostrem esse nervosismo e deixar o leitor captar isso por si mesmo. Assim como é mais fácil simplesmente darmos a solução do problema no final de tudo, sem deixar pistas ao longo do caminho para o leitor ir percebendo o que aconteceu conforme vai juntando as peças da história. Mostrar seu personagem sorrindo de orelha a orelha com os olhos brilhando dá um impacto maior do que simplesmente dizer que ele está feliz. Pense nisso ao escrever.
Tudo tem que ter um motivo: ao contrário da vida real, em que às vezes fazemos coisas “porque sim”, na história nada deve estar ali gratuitamente. Afinal, qual o motivo de perder páginas e mais páginas descrevendo um personagem, um local ou um objeto, mostrando interações e diálogos ou contando flashbacks que não farão diferença nenhuma no resultado final da história? Pensar nesse aspecto até evita que você perca tempo contando o que não precisa ser contado. Da mesma forma, mudanças de comportamento de personagens, por exemplo, precisam de explicação, ainda que demorem a aparecer ou que estejam nas entrelinhas e os leitores precisem de um pouco de reflexão para captá-la.
Não exagere na descrição, mas também não deixe tudo vago: especialmente em cenas de drama ou de ação, por exemplo, em que descrever tudo vai "quebrar o clima" da narrativa. Mas, por outro lado, uma descrição vaga do ambiente em que os personagens estão brigando pode atrapalhar na hora do seu leitor imaginar o que está acontecendo. Tudo depende do seu estilo de história e do que é importante para ela. Se ao discutir, seus personagens vão interagir com o ambiente, é importante descrevê-lo com um pouco mais de cuidado (embora não nos mínimos detalhes). Se a discussão simplesmente acontece ali, mas o local não é parte integrante, uma descrição superficial antes dessa discussão já pode ser suficiente. De novo, busque o equilíbrio.
Formatação faz diferença: ao escrever, o conteúdo é fundamental, mas a forma como você vai escrever pode contribuir tanto para a aceitação quanto para a rejeição de sua história. Parágrafos longos demais podem ser cansativos, assim como misturar aspas e travessão nos diálogos, por exemplo, pode deixar seu texto confuso. Desnecessário dizer que um bom uso da pontuação também é muito importante. Errar vírgulas o tempo todo não só interfere no ritmo da leitura como pode deixar o texto confuso. Textos em formato de script também podem confundir o leitor se você não souber explicitar direito quem está fazendo o quê, e algumas variações do script possuem termos próprios. A vantagem dessa forma de texto é ser mais rápida, mas, por outro lado, escrevendo em prosa você pode colocar pensamentos ou ações entre as falas de um mesmo personagem sem prejudicar o entendimento do leitor. No fim das contas, não importa o jeito que você escreve, mas procure sempre deixar os seus leitores com o mínimo de confusão mental possível. A não ser, é claro, se for algo proposital.
Registre suas ideias: mesmo que você seja do tipo que planeja conforme vai escrevendo, ou escreve primeiro e depois vê o que fez para decidir como termina. Passar suas idéias pra uma folha de papel, como já expliquei, evita que você perca informações, ideias, detalhes que farão diferença no seu enredo. Nem sempre nossa memória é cem por cento confiável. Por via das dúvidas, tenha sempre algo registrado em papel ou no computador para consultar quando precisar.
Saiba o momento certo de solucionar os problemas: tirando o problema principal e os estritamente ligados a ele, é uma boa ir solucionando algumas coisas ao longo da história. Você pode até aproveitar isso para ir ligando as tramas, explicando coisas necessárias para a história, desenvolvendo a personalidade dos personagens, etc. O importante é ter em mente que deixar tudo para o final traz o risco de deixar o último capítulo maçante demais ou com “soluções mirabolantes” que não convencem ninguém.
Seja coerente: usando um exemplo estúpido, você não pode dizer que “vermelho é vermelho” aqui no começo e, mais na frente dizer que “vermelho é azul”. Esteja sempre atento e seja flexível para mudar, melhorar, acrescentar ou mesmo eliminar certos pedaços da história que não funcionam. De novo, aqui os registros fazem uma diferença gritante. Aprenda que forma de registro e planejamento fica melhor para você e coloque em prática.
Por último, mas não menos importante (pelo contrário), revise. E revise. E revise de novo. E revise mais uma vez, só pra garantir: nem mesmo o melhor escritor do mundo consegue deixar o texto bom logo de cara, então não seremos nós, pobres mortais, que conseguiremos isso. Há um tempo, li em algum lugar (acho que no Twitter) que o primeiro rascunho é só o escritor contando a história para si mesmo. A partir dele é que nós poderemos melhorar, ver o que ficou sem resolução, aparar arestas, melhorar, acrescentar ou retirar o que não funciona e corrigir erros (sejam de narrativa, português ou mesmo de digitação). Muitas vezes, é preciso mais revisões para deixar os textos no ponto certo, portanto não se apresse. Um erro comum de autores, principalmente iniciantes, é terminar de escrever e já correr pra postar. Pressa nunca melhora nada, pelo contrário. Leve seu próprio tempo e, se houver a possibilidade, também é interessante procurar um beta-reader ou conversar com um amigo em cuja opinião você confia e colher dicas e sugestões com ele sobre sua história.




O post acabou ficando bem maior do que eu esperava, mas caso ainda tenha deixado algo de fora e você tenha algo a adicionar, só deixar nos comentários. Até a próxima semana.

Um comentário:

  1. Achei esse post sensacional. Irei levá-lo para o resto da vida :)

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