[CONVIDADOS] Conto: Haya e Azrael

domingo, julho 03, 2016
Haya e Azrael

São poucas as visões capazes de se equiparar a um amanhecer frouxo e alaranjado de domingo. Há uma languidez morbidamente bela no modo como a poeira decide pairar nos filetes de luz que escapam pelas cortinas entreabertas; e na maneira como bafeja o vento carregado de eletricidade, prevendo, talvez para a tarde, as tempestades calorosas características do mês de janeiro. São manhãs em que o encanto particular do ócio torna-se mais do que perceptível, quase palpável. Essa era uma dessas manhãs.
O despertador anunciou sete horas. O som mecânico e insistente, apesar de possuir nobre propósito, foi o suficiente para provocar em Augusto o mau humor costumeiro pelo qual sempre fora reconhecido. Qual o fundamento de acordar cedo, afinal? Escassas são as coisas no mundo pelas quais se vale o esforço de madrugar. Há dois anos havia decidido isso, e ainda assim, não conseguia se desprender do costume de se levantar junto ao sol. Virou-se na cama, decidido a ignorar o juízo de viver e retornar a dormir. Entretanto, impediu-o um pensamento incômodo.
"O mesmo maldito nome", pensou alto.
Havia meses que sonhava o mesmo sonho. Ou a mesma manifestação de sonho, não sabia ao certo como chamar. Sabia apenas o nome, e que o mero pensamento de encontrá-lo na vida real o apavorava. Não importava o que fizesse na noite anterior, qual o filme assistido, a pessoa com quem dividira a cama, ou a quantidade de entorpecentes ingeridos a fim de desmaiar direto para o outro dia, e extinguir qualquer possibilidade de sonhar com o nome. Ou, mais precisamente, com ela. No final, sempre se encontrava preso dentro do mesmo devaneio adormecido.
Começava caminhando por uma espécie de limbo, um grande vórtice infinito de nada, repleto de negrume até onde alcança a vista. Caminhava até chegar ao pé de um imenso labirinto. De dentro, ecoava uma voz. Tênue e feminina, ela repetia o nome. Aquele aterrorizante e belíssimo nome. No sonho, ele disparava com desespero em busca da fonte do som, os braços balançando ao lado do corpo, o baque de seus passos batendo alto contra o chão, e o retumbar pulsante do próprio coração beirando os ouvidos. Assim, adentrando cada vez mais o profundo labirinto, até que finalmente, a encontrava
Ela vinha de várias formas - era certo que adorava divagar pelo curso dos anos. Geralmente, era uma mulher adulta, talvez de uns vinte e cinco anos, o que aos olhos de Augusto, remetia à lascívia; por vezes, era idosa, e curvava-se com latente fadiga; outras vezes, aparecia como primaveril adolescente. Dessa vez, em especial, era uma garotinha. Sempre oculta pelo mesmo manto azulado, tornando impossível ver-lhe o rosto. Repetia a mesma palavra de sempre, que Augusto acreditava ser seu nome - "Haya".
Então, ele acordava.
Sentou-se.

"Haya", ele disse em voz alta, apanhando e encaixando às frontes o grosso par de óculos sujos. "O que diabos isso significa?"
Sempre fora fascinado pelos significados dos nomes, bem como pelo porquê desse hábito tão essencialmente humano - nomear as coisas, as pessoas. Era encantado a ponto de tomar o interesse como carreira: foi aos dezenove anos que descobrira a antroponímia, divisão da onomástica que, dentro da linguística, estuda os nomes próprios das pessoas. Assim, desde o início era natural o seu interesse por um nome tão singular, encontrado em circunstâncias tão excêntricas, quase místicas. Contudo, apesar da pungente curiosidade, faltava-lhe a coragem para descobrir o real significado da palavra. Não pelo significado em si - não temia os maus agouros, muito menos aqueles que previam a morte, e dava pouca importância a falácias a respeito do sobrenatural. "A superstição é o mal ao qual sucumbem os fracos de espírito", era a sua opinião. Seu medo era outro. Receava que, se descobrisse o sentido do termo, ela desapareceria
O dia escoou apressado com a pertinência de uma criança teimosa. As distrações mundanas a que se permitiu Augusto não foram capazes de afastar a consciência de que o inevitável estava por vir. Aqui e ali conseguira distrair o pensamento com um romance, um jogo online de xadrez, ou uma prova qualquer que esquecera de corrigir na semana anterior. Mas mesmo assim, lá estava ela, pairando em alguma extremidade remota de sua mente: a promessa de que dentro de poucas horas compareceria a seu pontual compromisso noturno. Logo aproximou-se a noite, e portanto, o magnífico e temido momento que conhecia tão bem. Não tardou a chegada da aflita corrida que penetrava o labirinto, tampouco a ressonância da melodiosa voz. Entretanto, ao encontrá-la, a imponente palavra foi, pela primeira vez, outra:
“Azrael".

Augusto acordou suando, intrigado, e sentou-se num movimento súbito e apreensivo. Era a primeira vez em anos que ouvia seu primeiro nome. Desde a dura morte de sua mãe, passara a adotar como oficial o nome do meio. Claro, seria muito mais fácil para um estudioso dos nomes viver sob a sombra de um significado tão explicitamente esperançoso: Augusto - Rei magnífico, aquele que é grandioso, repleto de esplendor. Gostava de pensar que essa era sua maneira de fingir que se aproximava das pessoas, que se adaptava ao mundo ao seu redor. Era sua máscara tingida de felicidade. Uma máscara que ocultava, aos olhos dele, uma natureza sombria e, admitia, lamentável. Nunca soube porque a mãe lhe batizara com este nome, que agora fazia de tudo para esconder - talvez nem dos outros, e sim de si mesmo.
Azrael, o anjo negro justiceiro da tradição folclórica judaico - cristã. Aquele que traz a destruição. A Morte. Este era seu verdadeiro nome. Muitas eram as vezes em que se surpreendia meditando sobre até que ponto o sinistro termo o definia. Esperava, no entanto, que nunca chegasse a descobrir.
Caminhou até a Universidade a passos largos, o cenho franzido manchado com uma aura inquieta. A agitação urbana típica das segundas-feiras arrastava-se à sua volta como um borrão sem significado - o pensamento viajava longínquo. Chegou à sala designada para a primeira aula do dia, deu bom dia aos alunos que há algum tempo esperavam, mas que não estranharam o atraso. Era de conhecimento geral que o professor de Estudos Históricos dos Nomes não andava "muito bem das ideias", como eles mesmos colocavam. Prosseguiu com a lição do dia com a desafetação mecânica de uma máquina. Foi apenas na hora de realizar a chamada que o processo automático findou.
Desde que começara a carreira como professor, mostrou-se um profissional um tanto quanto severo. Fazia questão de ler cada um dos nomes de seus alunos em voz alta, e não tolerava quaisquer engraçadinhos que tentassem burlar sua confiança respondendo no lugar de algum amigo faltoso. Chegava a ser criticado por dois ou três colegas mais liberais, mas não o importava. Seu prazer secreto era adivinhar a aparência do indivíduo ao qual pertencia o nome lido, apenas para depois se surpreender vendo como ele é de fato. Aproximava-se da letra H quando sentiu o corpo petrificar. Era ela. Chamou pelo nome. Era estranho dizê-lo em voz alta perante outras pessoas. Vasculhou a turma com uma fugacidade desesperada, mas ninguém se pronunciou. "Já saiu", disse um dos alunos.
Terminou a chamada com desajeitada pressa. Aquelas quatro letras pareciam palpitar em direção a seus olhos. Depois de findada a tarefa, disparou a correr a toda velocidade, como o fazia toda noite no sonho, deixando para trás o próprio material e as expressões confusas dos alunos. Passou pelo corredor, as escadas, as portas automáticas...
Ela entrava num táxi. Ele sentia o coração martelar contra o peito. Agarrou-lhe o pulso.
"Espere!", tentava recuperar o fôlego.
A jovem voltou-lhe os verdes olhos com uma expressão familiar e compreensiva, como se o reconhecesse, de algum modo.
"Qual é o seu nome?", a voz masculina tremia.
Ela riu.
"Você sabe o meu nome..."
É claro que ele sabia. E ela sabia o dele. Afinal, conheciam-se.
Ele pensou por um instante.
"Pode me dizer o que ele significa?"

Haya riu um riso de alegre compaixão. Ela era como um reflexo reverso de Azrael - jovial, animoso, espontâneo. Quase como um retrato da máscara que ele tão desesperadamente tentava mostrar ao mundo. Quase como seu perfeito oposto.
"Isso você pode descobrir."
O táxi partiu. Ele sorria.

Naquela noite, Azrael não sonhou. Havia visitado a biblioteca da Universidade antes de voltar à sua casa. Recorrera ao mesmo livro que usara tantas vezes em diferentes pesquisas, o mesmo dicionário de nomes próprios que tanto evitou nos últimos meses com medo do nome sonhado. Após um rápido percorrer de páginas, ele finalmente pôde entender. Mas é claro, é claro que seu nome era Haya. Estava ali, com toda a clareza evidente que ele antes não fora capaz de enxergar.
Haya - nome feminino de origem hebraica. Aquela que traz a luz. Aquela que representa tudo o que existe.
Vida.



Conto de Catharine Affiune, enviado por e-mail.

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