Guia Prático de Como Fazer uma Boa Fanfiction: Foco Narrativo e Tipos de Narrador

domingo, janeiro 29, 2017


Essa parte requer uma aula básica de literatura.
Existem três tipos de foco narrativo, primeira, segunda e terceira pessoa; e esse assunto está estreitamente ligado à ideia dos tipos de narrador.
No Foco Narrativo de 1ª Pessoa, o narrador também é personagem, participa da história e mostra sua visão dos fatos. Pode ser o Narrador-Personagem, o protagonista da história contando tudo o que aconteceu com ele (como, por exemplo, em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis e inúmeros outros livros), ou o Narrador-Personagem Testemunha, quando o narrador não é o protagonista, mas viu tudo o que aconteceu com esse personagem principal (como na série Sherlock Holmes, do Arthur Conan Doyle).
No Foco Narrativo de 2ª Pessoa, o narrador se dirige diretamente ao leitor, diminuindo a distância entre quem escreve e quem lê. Aqui, não usamos o “eu fiz isso” ou o “ele fez isso”, mas sim o “você” ou o “tu”. É menos usado em livros e mais comum em músicas e poemas, ou em contos, mas nada impede de ser usado em histórias maiores. Depende de sua habilidade de contar histórias.
Já o Foco Narrativo de 3ª Pessoa, o narrador apenas conta a história, mas não participa dela. Pode ser Observador, quando apenas narra o que “vê”, ou Onisciente, quando conhece profundamente o personagem e sabe o que ele pensa, o que sente, seus medos, seus desejos, enfim.

Quando falamos de foco narrativo e modos de narração, mais cedo ou mais tarde surge a pergunta “qual é a melhor forma de narrar?”. E então vem a mais frustrante das respostas “depende”.
Como tudo na vida, cada escolha é uma renúncia, certo? Ao escolher a primeira pessoa, por exemplo, você fará um mergulho profundo no seu personagem e criará laços mais profundos entre ele e seu leitor. Porém, sua visão fica limitada.
Você só pode contar o que o personagem sabe, o que ele vê, o que ele sente. As mentes dos outros personagens são um completo mistério para ele (a menos que ele seja telepata, como a Sookie Stackhouse, dos livros da Charlaine Harris) e ao ver um personagem com algo na mão a distância, dependendo de quão longe esse outro personagem está, ele não vai ter como ver o que é (a não ser que tenha uma visão além do alcance como... não sei, histórias de super-heróis não são minha praia rs).
Com o narrador observador, o problema será semelhante. Você não poderá se aprofundar na mente dos personagens porque esse tipo de narrador apenas olha tudo de fora. Já com o narrador onisciente, você sabe tudo o que acontece com o personagem, mas em ambos os casos da terceira pessoa, é possível que o leitor não desenvolva o mesmo laço que o ataria caso o personagem narrasse tudo em primeira pessoa.
O ponto é: cada história pede um tipo de narrador diferente. Há histórias que ficam bem e funcionam bastante em primeira pessoa (geralmente livros de mistério, suspense e terror, em que precisamos ter a experiência que o personagem tem e não podemos saber tudo o que está acontecendo para manter a tensão).
Já outras, funcionam melhor com narrador em terceira pessoa. Imagine só contar histórias complexas e cheias de informação como “As Crônicas de Gelo e Fogo” ou A Saga do Um Anel pelo ponto de vista em primeira pessoa de um único personagem? Pense quantas informações nós perderíamos e depois mesmo que fossem contadas a esse personagem e nós ficássemos sabendo por tabela não trariam o mesmo impacto?
O segredo é: teste sua escrita. Escreva em diferentes pontos de vista e veja em qual deles você se sai melhor. Eu quebrei a cabeça com três histórias até perceber que pra textos grandes, com muitos capítulos, eu só escrevo bem em terceira pessoa com narrador onisciente. Reservo a primeira pessoa para histórias mais curtas ou contos.
Também é sempre possível alternar os pontos de vista. O próprio Martin faz isso na terceira pessoa, com um personagem diferente assumindo o POV em cada capítulo. Também é interessante notar a alternância em alguns livros da série Harry Hole, do Jo Nesbo. O livro é contado quase todo na terceira pessoa do POV do protagonista, Harry, mas vez por outra temos o POV de outro personagem quando algo importante acontece e o Harry não pode estar presente para “contar” para o leitor o que houve. Em outro livro, ele coloca POV em primeira pessoa também em alguns momentos-chave.
E é isso o que faz diferença: é realmente importante para sua história alternar de POV? Mais importante ainda: é necessário fazer isso o tempo todo?
Ok, vamos supor que seja fundamental para seu enredo a alternância e você já decidiu a frequência: quem vai narrar essa história? Ora, apenas quem tem algo importante a dizer e contribuir em mover essa história para frente, quem tem informações importantes a dar para seu leitor. Refletir sobre isso vai evitar que você perca parágrafos e mais parágrafos aprofundando um personagem que não tem tanto peso assim na sua trama.
Acho que em todas as minhas histórias longas há a alternância de POV, geralmente entre os dois protagonistas (raras são as histórias em que tenho apenas um personagem principal). Quando há outros narrando, é porque aconteceu algo que os leitores precisam saber, mas apenas esse personagem pode contar. Por mais que eu goste de determinado personagem, se ele não tem nada de importante a dizer, não terá POV.
Por último, mas não menos importante, cuidado como essa alternância será marcada, caso opte por ela. Quando você alterna entre dois personagens apenas, colocar um de itálico, por exemplo, pode funcionar. Se decidir colocar um POV por capítulo, fica mais fácil, mas nem sempre isso funciona bem para todas as histórias, especialmente porque às vezes o POV de um personagem pode ser bem curto, não precisando de um capítulo inteiro só para ele. Nesse caso, você pode usar separadores de cenas, como os famosos “****” entre um POV e outro (ou entre uma cena e outra).
O ponto é não use “POV de Fulano”. Isso é quase insultar a inteligência do seu leitor. Usando os recursos acima, a não ser que sua escrita seja muito confusa, já vai dar para perceber de quem se trata. Se preferir, vale até copiar a ideia do Martin e colocar o nome do personagem como nome do capítulo, mas #bastadePOVdeFulano, por favor.
Por hoje é só (?). Críticas, elogios, pedidos de post e sugestões, só deixar nos comentários.
Até a próxima semana :D

4 comentários:

  1. Sempre bom ver um posto novo por aqui! As dicas foram muito válidas. Tenho histórias em primeira pessoa, mas escrever em 3a é o que eu mais gosto ♡
    #bastadePOVdeFulano

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    1. Primeiro foi uma luta pra arrumar o layout, depois outra pra decidir o que postar HAHAHAHA Mas acho que agora as coisas normalizaram. Já devo ter uns 3 posts quase prontos, então espero não demorar mais.
      E chega de POV de Fulano, gente. Somos inteligentes. Dá pra saber quando muda sem vocês avisarem hahahahaha

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  2. Adorei o Layout novo e o post. Outro ponto interessante de se ter cuidado e observar na hora de escrever é a própria mudança de narrativa conforme se altera o POV, afinal são personagens diferentes, e mesmo que seja em terceira pessoa, é sempre positivo que a "entonação" do texto acompanhei a personalidade de quem narra, dá uns pontos a mais quando o autor consegue trabalhar bem nisso.

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    1. Ótimo ponto levantado! Não esqueci, apenas não consegui ser resumida quanto a esse ponto e achei que seria melhor abordar essa questão da "voz" do personagem em um post separado HAHAHA Espero que ele saia em breve, mas tenho alguns outros na fila então não posso prometer quando ele sai.
      Muito obrigada pelo comentário ^^

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