Guia Prático de Como Fazer uma Boa Fanfiction: Passado e Futuro


Hoje vamos analisar dois temas bem importantes a respeito de uma história, embora apenas um deles seja “obrigatório”. Trataremos do passado (pensando aqui em termos de “flashback” ou mesmo da história pregressa, a popular “história antes da história”) e futuro (enquanto possíveis continuações, ou apenas a progressão do autor a respeito de como ficarão seus personagens após o fim, o que pode nortear que caminho seguir durante o meio da história).
O flashback é um recurso bem comum, até. Muitas séries de TV, por exemplo, usam e abusam dele, algumas até se tornando bem famosas por isso (como “Lost”). Trata-se daquilo que acontece antes do começo da história e contribui sempre na formação do caráter da personagem, em menor ou maior grau.
Não é tão difícil criar um passado quando a história é completamente sua. Já em caso de uma fanfic, é mais complicado, porque você tem que criar algo que encaixe totalmente com o enredo original. Por exemplo, explicar a história de um casal já formado, dizer como foi o nascimento ou morte de determinado personagem, descrever batalhas, brigas, anseios, separações que influam no início de determinada história, etc. E tudo isso sem esquecer os sentimentos dos personagens levando em conta o onde e o quando dessa história.
Como se faz um passado vai depender muito da história, do seu estilo de escrita, do rumo que você quer dar a seu universo e a seus personagens.
Também é preciso que você tenha uma ideia do que vai querer mostrar nesse passado para decidir como fará isso. A partir daqui, podemos dividir a questão em duas partes: o flashback em si e o famigerado prólogo.
Algo bem interessante sobre flashback que eu nunca tinha reparado é que ele é sempre puxado por algum dos sentidos do personagem. Por exemplo, ele sente um cheiro e tem uma lembrança de sua infância, ouve uma música e relembra uma pessoa, e por aí vai. Precisei fazer um curso de escrita para perceber isso.
O porquê é bem simples: o flashback nada mais é do que uma memória do personagem, e nossas memórias costumam ser trazidas à tona por elementos que estão à nossa volta. Um exemplo é quando olhamos de relance nosso celular em cima da mesa e lembramos uma ligação importante que ainda não fizemos.
Aqui você pode fazer uma cena separada para o seu flashback ou incluí-lo na história sem problemas. Exemplos? Vamos lá (perdoem a formatação lixo dos quotes. O Blogger resolveu implicar rs):

“Hannah abriu o guarda-roupa e se sentiu invadir pelo cheiro das roupas da mãe. Tocou o tecido com delicadeza e sua infância passou diante de seus olhos. Lembrou-se dos fins de tarde, quando a mãe retornava do trabalho exausta, mas sempre sucumbia a seu sorriso e tirava alguns minutos para brincar com ela antes do jantar logo depois de aconchegá-la em seus braços calorosamente. 
Uma lágrima escorreu pelo seu rosto, trazendo-a de volta ao presente, e fazendo-a sentir a falta de Judith como não havia sentido até aquele momento em que a ficha finalmente caíra: sua mãe estava morta e não importava o quanto desejasse, ela jamais voltaria”.

Aqui a personagem tem sua lembrança enquanto age, dentro da cena. Podem ser trechos curtos ou mais longos, tudo vai depender de sua habilidade de entreter o leitor.
Mas também poderia ser mais desenvolvida e separar-se do restante do texto. Vejamos outro exemplo:

“Lewis acendeu a luz do sótão e deixou os olhos vagarem pelos móveis antigos, alguns parcialmente destruídos, os antigos retratos de família e os restos do que antes havia sido uma decoração luxuosa e elegante.Antes cada peça havia sido o orgulho de sua avó, que contava a história de cada uma delas com os olhos sonhadores.
***
— E este aqui eu ganhei de seu avô em nosso aniversário de dez anos de casamento — ela falou, enlevada, erguendo nas mãos um frágil vaso decorado como se fosse o item mais precioso de sua coleção. Então seu tom se tornou mais melancólico: — Acho que foi o último presente que ele me deu antes de morrer.
— Ora, mamãe, não falemos de coisas tristes na frente do menino! — ralhou sua mãe, ao perceber o rumo da conversa. — Ele é apenas uma criança e está de férias. Devemos conversar sobre assuntos felizes.
A avó devolveu o vaso ao suporte na sala com um suspiro e fingiu coçar o canto do olho para espantar uma lágrima sorrateira, que Lewis fez de conta que não viu.
***
Foi inevitável se sentir culpado. O rapaz tomou o vaso entre as mãos com o mesmo cuidado da avó.
Engoliu em seco. Todas as memórias dela agora estavam ali: em seu sótão, acumulando insetos e poeira. Não era justo”.

Um ponto muito importante a considerar sobre os flashbacks separados da cena é a total desnecessidade de assinalá-los explicitamente. Não coloque “Flashback on/off”, isso é quase insultar sua audiência e chamar seus leitores de burros.
Eles podem tranquilamente perceber do que se trata apenas olhando a cena, basta você grafar o flashback de forma diferenciada, seja com a linha extra, usando um separador (como eu fiz) ou ainda grafando a cena de itálico, por exemplo.
Agora, passemos para o prólogo. O primeiro ponto a se dizer é que ele é uma parte relevante para a história principal, mas que tende a se passar muito antes dela. Quanto tempo entre o prólogo e o capítulo 1 nem é assim tão importante. Aqui a palavra-chave é a relevância (embora ela sirva para tudo em uma história rs).
Analise seu prólogo, caso tenha se o leitor conseguiria entender a história sem a existência dele. Ele faz falta? Alguma informação essencial é passada ali? Se a resposta para todas essas perguntas é sim, vá em frente. Se não, bem... Talvez seja melhor mudar as coisas ou mesmo removê-lo.
Ainda dentro do passado, temos as cenas independentes. Não sei bem se há um nome para elas, mas são aquelas que estão incluídas no texto, mas não são nem prólogo (porque não são apresentadas antes do começo, muitas vezes estão entre cenas e/ou capítulos no desenvolvimento da história) nem são flashbacks, porque não há uma lembrança envolvida.
São pedaços importantes da história que acontecem no passado e devem estar expostos para uma melhor compreensão do enredo, mas que, por qualquer motivo, não podem aparecer como nenhum dos dois tópicos estudados até o momento.
Esse recurso será usado por mim em abundância em uma história futura, em que preciso que os leitores acompanhem os eventos de determinada linha temporal, mas não posso colocar em um prólogo (porque são trechos grandes que serão diluídos ao longo de um arco de personagem; se fosse um prólogo, seria um de 100 páginas, que ninguém leria jamais) nem podem estar em flashback porque a personagem [SPOILER ALERT... se bem que nem dei o nome da história nem da personagem rs] nem está mais viva.

*pausa dramática*

Isso mesmo que você leu. Farei você se apaixonar por uma personagem que já está a sete palmos há um bom tempo MUAHAHAHAHHA *tomando chá das cinco com tio Lu*


Por último, antes que esse post é que fique com 100 páginas, passemos para o futuro. Como disse antes, entendam esse “futuro” como o que acontece depois do fim, sobretudo se você quer continuar a história.
Antes de mais nada, primeiro planeje. O fim da primeira trama permite o desenvolvimento de uma nova? Deixei algum gancho que preciso ‘fechar’? Quanto tempo passou? O que eu precisarei mudar agora, com base na quantidade de dias, anos ou décadas que passou?
Sobretudo, pergunte-se: “Qual a motivação para se perturbar novamente o protagonista?”. Que seja algo convincente, porque enrolação não cai bem. Comece relendo a primeira história e procure as tramas que ficaram inacabadas, algum gancho que você possa explorar para continuar com essa história.
Com base nisso, faça um novo plot. Quem da primeira história vai aparecer e por quê? Vou trazer personagens novos? Quais? Quem são? O que fazem? Que ligação terão com os primeiros personagens? Sua importância é muita, média ou mínima? Essas e outras são algumas perguntas que devem ser respondidas de maneira convincente. As palavras-chave são “convencer” e “ser coerente”.
Um cuidado básico é com o vilão ou o antagonista (acredite se quiser, são coisas totalmente diferentes. Veremos isso mais adiante). Ressuscitar um vilão morto ou passar o cargo de “vilão oficial” para o filho do vilão anterior pode se tornar um clichê horroroso se você não souber como fazer.
Se determinado vilão morreu mesmo, deixe-o morto e traga um conflito novo para o “centro do palco”, a não ser que seja apenas uma morte aparente e você tenha um bom gancho para trazê-lo de volta. Procure pontas soltas na primeira história que permitam tal desenvolvimento.
Sempre tenha boas explicações e, se for necessário, pode até escrever um “flashback” mostrando como o vilão original escapou da morte ou como o filho/subalterno dele resolveu seguir os passos do pai/mestre. Uma boa pedida, se estiver inseguro ainda, é criar um vilão/antagonista novo ou mesmo dar destaque a um que antes não era tão focado.
Isso também serve pro protagonista. Vai ser o mesmo de antes ou você vai desviar para um personagem diferente? Vai criar um novo? Pense bem, explique melhor ainda e vá à luta.
Caso haja uma passagem de tempo relativamente grande, descreva o que mudou nos personagens e ambientes mencionados, se revisitar algum. Apresente também personagens e lugares novos, e use suas habilidades para fazer com que o leitor se familiarize com eles e passe a gostar de cada um ou mesmo a odiá-los, depende do que você quer que seus leitores sintam por cada um.
Crie pistas falsas, não deixe o leitor ficar sabendo logo de cara os planos do vilão (isso serve para todas as histórias). Deixe certas falas apenas com o leitor e outras guardadas entre os personagens para que os leitores descubram no momento oportuno. Tenha sempre um pouquinho de mistério porque prende o leitor até o final (desde que, é claro, você crie um desfecho igualmente empolgante para ele).
Se for apenas um epílogo (jamais confunda com prólogo, por favor), já temos um desafio a mais: mostrar tudo o que mudou nesse meio tempo de forma resumida, mas dependendo de sua habilidade, pode dar bastante certo.
E quando falamos de “pensar no futuro para decidir o meio” estamos falando de como o desfecho vai impactar na vida futura do personagem e de quem está ao redor dele; de como a história se encaminhará para esse fim. O que ele vai aprender? Como ele será transformado? Que erros comete e em que pontos acerta? Será que suas habilidades do começo serão suficientes para essa jornada ou ele precisará aprender coisas novas? Com essas respostas, fica mais fácil saber o que colocar naquele pedaço de inferno entre o primeiro e o último capítulo, que poucos de nós conseguem percorrer sem maiores percalços.
Se for seu primeiro futuro, dificilmente ficará bom logo da primeira vez, mas não desista e tente de novo (um conselho que sempre dou é você tentar quantas vezes for preciso para que a história saia do jeito que você quer), pesquise em outras histórias ou peça ajuda de beta-readers.
E se você aceita um conselho, especialmente caso queira continuar mesmo a história, não apenas pensar sobre o futuro ou fazer um epílogo, aqui vai minha dica de ouro: saiba o momento de parar. Não adianta prolongar por 29248574578348327 partes o que você pode contar com poucas, ou mesmo apenas uma.
Mais do que isso: não continue uma história apenas porque seus leitores estão pedindo. A história é que tem que pedir uma continuação, caso contrário você pode colocar todo seu esforço a perder. Pense em quantos livros, filmes e séries que tiveram inúmeras continuações acabaram se perdendo ao longo do caminho e deixando para trás aquilo que tinham de diferencial, de interessante.
Reflita bem sobre isso e não deixe isso acontecer com sua história. Permita que ela acabe de forma natural e convincente. Seus personagens precisarão de aposentadoria mais cedo ou mais tarde. Melhor sair por cima, certo? Afinal, às vezes até os super-heróis se cansam...
Até o próximo post ;)

2 comentários:

  1. Adorei as dicas, produtivas, principalmente em questão de continuação de trama e as cenas independentes. E eu realmente nunca tinha parado pra pensar sobre como os flashbacks são desencadeados, mas é sempre algum estimulo e isso faz diferença na leitura comparado as fics com flashback do nada.
    Mas, 1- to curiosa sobre a história da personagem morta 2- li sua confissão sobre a mesma fazendo italian hand aqui, porque é muita cretinisse, mas como acho que muito dos autores que gosto são cretinos ta tudo ok. 3- vou adotar "*tomando chá das cinco com tio Lu*" e estava gargalhando uma vida disso imaginando Tom Elis kk

    P.S. no aguardo do post sobre trello e a outra ferramenta que você disse que usava num comentário antigo!

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    1. Essa história da personagem morta ainda vai demorar bastante porque só tenho o resumo geral, ainda preciso desenvolver a ideia, pesquisar e fazer o plot final pra começar a escrever. Pode colocar uns dois anos aí, pelo menos, até isso tudo ficar pronto HAHAHAH
      E eu sempre digo "nunca confie em escritores", porque somos todos meio cretinos. Quando estiver tudo bem, a gente vai tirar do bueiro um fato pra estragar tudo HAUAHAUA E falando nisso de tomar chá com o tio Lu, preciso ver essa série. Só preciso colocar as outras em dia antes HAHAHA
      E pode deixar: farei um post sobre o Trello, um sobre o Habitica e, se pá, até um sobre o yWriter e outro sobre o método Snowflake <3 Só preciso de tempo pra organizá-los e pesquisá-los <3

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