Quem tem Medo do Crítico Mau?



Faça o teste: escreva a palavra "crítica" em qualquer grupo de escritores e veja choro e ranger de dentes.
É um fato que, no fundo, ninguém gosta de ser criticado. Todos nós odiamos a sensação de não apenas cometer um erro, mas tê-lo apontado por outras pessoas (especialmente por quem não conhecemos bem e, por consequência, não sabemos que intenções têm).
Também é sabido (me senti uma das aias da Daenerys, lá no começo de GoT, agora rs) que, de fato, há pessoas que são grosseiras e deixam comentários negativos e ofensivos sobre o trabalho dos outros e até aquelas que, na verdade, nem acharam tudo aquilo, mas querem nos ver desistir do que gostamos de fazer.
Só que esse não é um post para chorar as pitangas.
Ao contrário. É para mostrar que as críticas são, sim, necessárias e sempre podem nos ensinar alguma coisa, mesmo quando são dolorosas de se ler.
Veja bem: não estou dizendo que você deve abaixar a cabeça e bater palma para toda crítica que receber. Muito menos que as pessoas devem ser escrotas e falar grosseria mesmo porque escritores têm que aceitar. Não!
Para não falar coisas vazias aqui e ficar pagando de "mente evoluída que aceita pedrada ensinando aos imaturos o que fazer nesses momentos", resolvi colocar um caso meu aqui. Vamos voltar aos meus primeiros anos nesse mundo. Nem lembro se 2007 ou 2008. Na época, eu estava postando no Nyah um texto não-ficcional que tinha como objetivo central ajudar as pessoas a escrever um pouco melhor. Foi essa história que adaptei para transformar em nossa sessão "Guia Prático de Como Fazer uma boa Fanfiction" aqui no blog.
99% do feedback era positivo. As pessoas não cansavam de agradecer nos comentários ou de compartilhar sua experiência com certos tópicos da escrita, que muitas vezes usei para escrever ou melhorar os capítulos seguintes. Ocasionalmente, eu recebia algumas críticas, mas tudo bem leve (aquelas bem suaves). O problema é que na época eu era, por alguma razão, extremamente sensível a elas e ficava mal por dias quando lia uma.
Normal, eu era bem nova e muito mais imatura que hoje (HUE), então é um comportamento esperado (embora ficar mal por ler um simples "podia ter pesquisado um pouco mais sobre x, também. Depois dá uma olhada nesse link" hoje me pareça absurdo).
Então não é de se espantar meu choque ao receber minha primeira crítica mais pesada. Lá estava eu, indo responder meus comentários serelepe e contente quando me deparo com um (não lembro as palavras exatas, mas a ideia era a mesma): "Está dizendo que não posso escrever sobre x quando tem tanta gente que escreve sobre y? Tá maluca? E esses erros aqui? [a pessoa se deu ao trabalho de listar até minhas vírgulas facultativas como erros. Sério.] Pelo menos, vai aprender a escrever antes de que ensinar pros outros".
Na verdade, não lembro das palavras mais pesadas ditas (porque teve algumas), mas esse final me marcou. Por alguma razão, abstraí todo o resto, mesmo o mais pesado e apenas o "Vai aprender a escrever!" ecoou na minha mente por meses.
Essa foi a primeira de muitas que recebi. Especialmente em meus tempos de moderação, já li muita mensagem desaforada de gente que usava meus textos contra mim e xingava minhas histórias apenas porque tinham recebido uma advertência boba. De "tá tudo um lixo" ou "aff, se mata", já vi de tudo. Uma pena não ter guardado prints, eu colocaria aqui com prazer só para vocês lerem o tipo de coisa em que já pus os olhos.
Mas provando que não ia embora tão cedo, o "Vai aprender a escrever!" ainda incomodava lá em um cantinho da minha mente. Dava uma alfinetada de vez em quando e nem quando eu deletei o comentário ele foi embora.
Inclusive se eu olhar em um cantinho do quarto muito escuro, ainda tenho medo de que apareça um fantasma sussurrando "Vai aprender a escrever, caralho!".
Passei semanas sorrindo e acenando, mas por dentro ainda estava em posição fetal chorando por isso. Até que um dia eu me olhei no espelho e... Quer saber? Tá tudo uma bosta mesmo. Vou estudar essa bagaça de teoria literária.
Apaguei algumas histórias e comecei a reescrever. Outras, deixei online, mas também alterei bastante coisa. Um terceiro grupo, eu deixei quieto ("um dia reescrevo", pensei... o que tento fazer até hoje rs). Foi nessa época que comecei a me preocupar em escrever com plot, melhorar os personagens, tentar passar minha ideia de forma mais clara.
Doeu? Claro que doeu. Mesmo com as coisas mais maldosas que vieram depois, a primeira foi a que marcou. Mas no final isso me serviu para algo bom: se hoje me preocupo tanto com a qualidade dos meus escritos e não consigo nem fazer um post aqui pro blog sem ter certeza do que estou dizendo, devo a esse comentário.
Ok que por causa disso agora demoro mil anos para postar algo novo (rs), mas foi esse choque (e somente ele) que me gerou essa preocupação com a qualidade daquilo que escrevo. A crítica pode ter sido feita para me desmotivar e desistir (certamente porque atingi o ponto fraco da pessoa ao criticar algo que ela parecia fazer), mas me serviu de escada para que hoje eu escrevesse algo e olhasse para ele com a ideia fixa de só trazê-lo a público quando eu estivesse plenamente satisfeita com ele.
E, sobretudo, devo a esse comentário a casca que criei para não surtar com a ideia de que as pessoas podem vir a odiar o que escrevo, mesmo com todo meu esforço. Tudo bem, é normal. Faz parte. Assim como eu não gosto de muita coisa em que ponho os olhos, não tem problema nenhum alguém não gostar do que faço. E eu odiaria que alguém quisesse vir me proibir de falar que acho certas histórias rasas e ruins, então não devo me ofender quando alguém fala isso das minhas ou querer calá-las. Elas e eu temos o mesmo direito: de ter nossa opinião e expressá-la.
Dei essa volta toda apenas para falar duas coisas. A primeira delas é: pare de olhar seus críticos com tanta má vontade. Não é porque alguém criticou sua história que ela tem inveja ou algo pessoal contra você. Na maioria das vezes, a crítica é apenas o que é: um puxão de orelha de alguém que ama seu trabalho, mas acha que você não está mostrando todo o seu potencial e pode ir mais além. Fechar os olhos para isso e responder com patada é perder uma oportunidade única de crescimento e reflexão sobre sua própria escrita.
Vocês acham mesmo que eu estaria tão preocupada em sanar todos os problemas que encontro em meus enredos se tivesse recebido apenas "ai que história perfeita, não precisa mudar nada" na vida? Claro que não. Provavelmente estaria ainda escrevendo sem plot, mudando a personalidade dos personagens de acordo com meu humor (sem coerência nenhuma) e não dando a mínima para vírgulas e acentos.
Duvido que vocês ainda continuassem por aqui se isso tivesse acontecido.
Cada crítica que li, mesmo a mais ácida, foi me calejando e dando apenas mais vontade de melhorar. Meus favoritos do navegador são lotados de links de pesquisa, tenho pastas e mais pastas de cenas de treino para partes dos textos que tenho dificuldade (diálogos incluídos), mas nada seria possível apenas com gente me passando a mão na cabeça e dizendo que já estava tudo ótimo.
Eu teria me acomodado e dito um "ain, posso gastar esse dinheiro com outras coisas" ao invés de me inscrever em cursos de escrita e aprender a fazer um POV bem feito. Teria ido fazer as unhas dos pés fim de semana passado ao invés de quebrar a cabeça tentando descobrir como solucionar o meu probleminha de "Moonlight". E com certeza teria achado mais produtivo ir tomar sorvete na segunda ao invés de ir procurar formas de lapidar ainda mais o meio de "Sangue Eterno".
O blog e a página talvez nem existissem. Eu estaria absorta demais na tarefa de escrever quatro ou cinco histórias ao mesmo tempo sem dar o devido aprofundamento a nenhuma delas para fazer isso.
Eu sei que tem gente que lê coisa bem mais pesada que eu e realmente sofre com isso, mas o ponto é: observe essa crítica pelo lado bom. Extraia dela apenas o que vai fazer você crescer.
Se eu tivesse me desmotivado e desistido ou, pior, me fechado na minha arrogância, tratado isso tudo como inveja e continuado no que estava fazendo, eu que ia sair perdendo. Ao virar o jogo e, mesmo com alguém que talvez só quisesse se vingar por algo que eu disse e de tantos outros que queriam me parar, seguir em frente eu que saí por cima. Eu aprendi algo. Eu melhorei. Eu talvez não consiga chegar aonde quero, mas pelo menos tentei. E todo o conhecimento que eu adquiri nesse período, se não servir para que eu realmente conclua essas histórias, ao menos eu posso transformar em dicas para que vocês melhorem as escritas de vocês.
E aqui vai a segunda: aprenda a ouvir as críticas sem reagir tão mal a elas. Tenha postura. Não desista nem trate todo crítico como alguém mal-sucedido cheio de amargor, mesmo que seja o caso. Você não ganha nada com isso.
Quando ler um "esse personagem está um lixo", ao invés de responder no mesmo tom ou se trancar no quarto ouvindo Adele por um ano enquanto se entope de chocolate, agradeça com educação (mesmo que sua vontade seja trucidar a pessoa) e encerre o assunto. Até vale tentar argumentar ou entender melhor o ponto de vista da pessoa, mas não desça ao nível dela. Mantenha a cortesia sempre.
E reflita sobre esse ponto. Descubra se há algo mesmo de incoerente com o personagem, se é possível melhorá-lo no futuro ou voltar e explicar melhor algo dele; ou se está tudo já bom e a pessoa só tem é veneno para destilar mesmo.
Vê? Já aprendeu outra coisa aqui: ao sentar e refletir sobre os comentários, você aprende a separar os que são sugestões e críticas válidas daqueles que deve ignorar. Não feche os olhos para eles. E outro ensinamento: desligue a emoção. Ela vai fazer você meter os pés pelas mãos e ser uma pessoa igualmente grosseira. Analise-os racionalmente. Sai melhor fechar a janela e responder em outro momento do que ir para cima com sete pedras na mão.
E para ninguém dizer que só estou dando exemplos de críticas pesadas e realmente grosseiras, eu já vi alguém dar chilique público em grupos de escritores apenas porque alguém apontou que é preciso de letra maiúscula para iniciar frases em um comentário bem educado. Algo que em nada justificava a reação exagerada que a pessoa criticada teve.
Percebe o problema? Ao se fechar apenas em elogios e ignorar críticas (tem gente que não tem vergonha de colocar nas notas da história "críticas serão apagadas"), a gente tende a se trancar em um universo paralelo em que tudo está lindo e maravilhoso, e isso nos cega. A primeira crítica (mesmo que seja totalmente educada e sem intenção de ofender) será um choque e você reagirá desproporcionalmente. Não seja esse tipo de pessoa.
Nenhum de nós sabe tudo, não é nenhuma vergonha admitir que não sabe algo ou que ainda tem dúvidas. Pesquise, leia, se interesse em ir atrás e peça ajuda a alguém que sabe mais (talvez até mesmo a quem fez a crítica). Você é quem cresce. E como o umbiguismo reina (embora não seja algo negativo dessa vez rs), vamos lá a outro exemplo meu: sempre tive um pouco de dificuldade com desenvolvimento de personagem e precisei estudar e treinar bastante para conseguir olhar para os que fiz atualmente e vê-los como pessoas reais. Mas isso não seria possível se, há uns quatro anos, minha beta e melhor amiga não tivesse me apontado que meus personagens estavam rasos e mal aprofundados.
Eu fiquei triste? Claro, ninguém gosta de ler algo assim. Mas briguei com ela e dei chilique? Não, óbvio que não. Tentei reler de novo e, ao reconhecer o erro, deixei a história de lado por um tempo e hoje estou trabalhando nela novamente para que ela volte sem esse problema.
Por último, mas não menos importante: mesmo que a única intenção da pessoa seja fazer você desistir, faça esse exercício de usar a pedrada como degrau. Vontade de melhorar e humildade para admitir quando pisa na bola são as maiores virtudes que podemos ter quando trabalhamos em qualquer coisa, principalmente com algo que não pertence apenas a nós. Uma vez que postamos nossa história, estamos dando margem para que ela gere impressões nas pessoas e os leitores falem sobre ela. Deixa de ser um mundo particular para se tornar um universo compartilhado.
E desistir por causa de crítica? Sério? Você apenas estará dando ao hater o que ele quer. Vai mesmo fazer isso?
Imaginei que não. Agora enxugue essas lágrimas e volte ao trabalho, que a estrada é longa, escura e cheia de terrores rs. Até domingo.

2 comentários:

  1. Mih, o curso de Teoria Literária que você fez foi presencial? Onde? Se você souber de algum online podia avisar a galera }}
    Ótimo post!

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    1. O curto que fiz foi totalmente online e me custou 150 reais, no começo de 2015. Acho que não teve novas edições, porque não ouvi falar mais nada, mas sei de um chamado "Escritor Profissional" do Carreira Literária que me falaram muito bem e não achei caro para o que oferece. 297 reais e você pode até publicar numa antologia deles. Aqui a lista de cursos que oferecem ^^ http://carreiraliteraria.com/cursos-3/
      Infelizmente não fiz mais nenhum porque estou desempregada e sem dindin agora, mas super faria esses <3

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