Guia Prático de Como Fazer uma Boa Fanfiction: Personagens - Parte 2



Antes de começar a escrever, lá no começo dessa série de posts, vimos que primeiro temos que saber sobre o que vai ser. Depois de definida a ideia principal de uma história, o próximo passo é definir os personagens. Já vimos o básico da criação de personagens, agora vamos ver cada um dos tipos. Temos quatro: protagonistas, antagonistas, secundários e acessórios.
Hoje, vamos começar pela arroba com quem tudo acontece: o protagonista.
Se for uma fanfic, o ideal é ou usar o mesmo personagem ou dar destaque a outro personagem da trama que você goste. Se quiser, pode criar um personagem e colocar no meio do enredo, encaixando com os personagens do roteiro original, mas tome cuidado. É necessário que o novo personagem traga algo para a história, não esteja ali apenas para ser um repeteco da história do protagonista original ou, pior, soe como o autor se incluindo na trama de forma mal feita (lembre-se: corra de Mary Sues como o diabo corre da cruz... quase rimou).
Se for uma original, torna mais fácil a tarefa de se manter fiel à personalidade do personagem, porém traz a desvantagem de você ter que construir tudo do zero, apenas tomando outras obras como referência.
Mas, independentemente de que tipo de história você escolha para escrever, tenha em mente uma coisa: o protagonista — ou protagonistas — tem sempre mais destaque que o resto dos personagens, mas isso não quer dizer que somente ele vai aparecer o tempo todo, muito menos que todos os personagens precisam girar ao redor dele. Veremos isso com mais calma quando abordarmos a parte de personagens secundários, calma ;)
Com isso, vem em mente a pergunta clássica:

"Quantos protagonistas eu posso ter?"

Não existe um número certo. Geralmente é um só ou dois, justamente para facilitar a tarefa de dar destaque de forma mais aprofundada à personalidade dele ou dela. Mas — dependendo do estilo, do enredo ou do interesse do autor — podemos ter vários deles. “Game of Thrones” está aí para provar que pode, sim, dar muito certo.
A questão aqui, caso você tenha muitos protagonistas, é outra.

“Por que eu preciso de tantos protagonistas?”

Agora sim. Sem querer cagar regra, odeio isso, mas já fazendo, muitos escritores adoram encher a história de personagens principais e, justamente para explicar a vida e a personalidade de cada um, puxar mil e uma subtramas, flashbacks, histórias pregressas, segredos, e etc etc etc. Acaba que no final vira um samba do crioulo doido e ninguém sabe mais nem qual é o ponto central, o conflito principal da história.
Vá com calma.
Contar a história com muitos protagonistas (o que nos leva à questão dos múltiplos POVs) é ideal quando temos muito chão para cobrir. A história, por exemplo, se passa em vários países diferentes ou em várias épocas diferentes e o leitor precisa estar por dentro do que acontece em cada um desses lugares e/ou tempos para entender o enredo em sua totalidade.
Mais uma vez, NÃO É REGRA, mas se sua história se passa em um local e/ou tempo mais restrito, não há necessidade de tantos protagonistas. A menos, é claro, que você tenha habilidade para transformar tanta gente em personagens interessantes, bem construídos e diferentes entre si, que o leitor consiga imaginar e diferenciar sem maiores dificuldades.
O importante é ter em mente que, não importa sobre quem você vai escrever, e sim se essa história é importante e vale a pena ser contada. O que de tão extraordinário esse personagem fez para ser o ponto central dessa trama? Por que todas, ou a maioria, das subtramas passam por ele? O que nós perderíamos se você escolhesse outro personagem para tomar seu lugar?
Enquanto essas perguntas não forem respondidas de forma satisfatória e convincente, é bom ir lapidando e trabalhando mais não apenas o enredo, mas principalmente aprofundando esse personagem e fazer com que ele se destaque não apenas aos seus olhos. O leitor precisa se interessar verdadeiramente por ele.
Outro ponto importantíssimo é tomar cuidado com a possível mudança de protagonistas no meio da história, o que nos remete à mudança de POVs mais uma vez. Se for usar mais de um protagonista, é bom que isso fique claro para o leitor já nos primeiros capítulos. Para isso, você pode escrever um capítulo no POV de cada personagem ou alternar dentro do capítulo, indicando a alternância com espaços entre as cenas ou separadores, depende do seu gosto.
O ponto é: escrever uma história de 50 capítulos em que o segundo protagonista só tem ponto de vista lá no capítulo 48 é um tiro no pé. Por que não começar a fazer isso já, por exemplo, no capítulo 3? O leitor já se acostuma com o estilo e sabe que o ponto de vista vai ser mudado durante a trama quando for preciso.
Também há uma divisão entre os tipos de personagens em geral, mas que quero abordar aqui já para servir de gancho para o tópico seguinte. Temos dois tipos de personagens: os planos e os redondos.
Planos são aqueles que também podemos chamar de lineares. Ou seja, não há maiores mudanças neles ao longo da trama. Não podemos perceber qualquer diferença, aprendizado, evolução (ou mesmo involução, o personagem pode piorar ao invés de melhorar). Via de regra, ele começa e termina do mesmo jeito.
Já os redondos ou não-lineares são aqueles nos quais acontece alguma transformação, positiva ou negativa, no decorrer da história. Eles são mudados pela jornada, seja algo em sua visão de mundo, filosofia de vida, atitudes, etc. Eles mudam sua opinião sobre temas, trocam de religião, de posição política, aprendem algo, etc.
E aqui entra nosso último tópico de discussão. Ter personagens secundários planos até não tem tanto problema (a menos que todos sejam, aí a história perde um pouco da graça). Mas protagonistas planos? Que não aprendem nada? Que agem sempre da forma esperada e não surpreendem o leitor?
Claro que toda mudança precisa ter um motivo, mas quando o personagem age exatamente da forma que esperamos o tempo inteiro (sobretudo nos arcos finais) não apenas podemos ter um clichê, mas a história se torna previsível. Quando o personagem principal não é levado à refletir sobre nenhum ponto de todos os eventos que acontecem com ele, quando não aprende nada ou permanece tal qual a história estava quando começamos, isso mostra apenas que toda aquela história, todas as dificuldades que ele teve que enfrentar forma inúteis.
Agora, se me permitem ser ainda mais chata, preciso dizer que protagonistas planos, infelizmente, parecem estar cada vez mais comuns. Poucos são aqueles personagens que conseguimos ver o crescimento, a mudança operando, a força nascendo e sendo trabalhada. A maioria já começa forte, fodão, com opiniões certas e adequadas sobre a vida, o universo e tudo o mais.
Acaba que o pobre coitado não tem mais para onde ir. Não tem para onde crescer.
O autor matou suas chances de evolução, e consequentemente de criar carisma junto aos leitores, antes mesmo que a história pudesse começar.
Trágico!
Nos vemos domingo que vem.
Espero que tenham gostado e aprendido algo com o post. Não esqueçam de deixar suas críticas, elogios e sugestões de postagens aqui nos comentários.

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