Em Discussões sobre "Alta Literatura" vs. "Literatura Popular"; Os Dois Lados, Normalmente, Estão Errados

domingo, maio 13, 2018
Meme pra gente se sentir representado nas tretas :v 



Se depois desse título gigantesco você ainda estiver aí, pega a coca e a pipoca porque o post de hoje tem um potencial de treta inacreditável. Digamos que eu estou com muitos amigos, preciso fazer mais desafetos rs
Já que dei spoiler da minha opinião, me permitam pelo menos desenvolvê-la por completo e leiam até o final antes de comentar. Vai ser longo, um textão do cacete, mas vai valer a pena: vai por mim!
Well, vamos começar. Se você está em algum grupo de escritores (qualquer um), já deve ter visto algum post falando sobre a “queda do nível da literatura atual”, “livros de x estilo estragam a literatura” e “estilo y nem é literatura de verdade”; que puxam os já famosos “é literatura, sim, você que é chato”, “literatura não é só Machado de Assis”, “quem é você na fila do pão pra achar isso?”.
E isso só dos que consigo me lembrar.
Podemos dividir essas brigas em dois âmbitos: escrita (galera criticando escritores [amadores ou não] que escrevem sobre certos temas e/ou gêneros) e leitura (pessoal que lê esses gêneros, sejam online de graça ou comprando essas histórias). Vamos desenvolver os dois meio juntos, porque estou com preguiça de fazer outro post e esse vai ficar ainda maior se eu fizer tópico por tópico, então let’s go.
Recentemente, em um dos grupos que faço parte (não lembro agora se do Wattpad ou do Nyah), alguém postou uma crítica a livros de youtubers, vindo com boa parte dos “argumentos” que já lemos ali em cima e trazendo consigo todos os “contra-argumentos” que vieram ali logo depois.
Nessas tretas, eu sempre fico de fora, porque consigo ver verdades e exageros em ambos os lados. Procuro ler, pelo menos, a maioria dos comentários (mesmo quase todos se repetindo a partir de um ponto) na esperança de, finalmente, pender para um grupo ou outro, mas a cada novo post do estilo, só morro mais de vergonha.
É impressionante a quantidade de gente que ainda não consegue ver o todo e permanece batendo over and over again na mesma tecla. Socorro!
Comecemos pelos que são contra esse tipo de estilo. Não vou ser hipócrita aqui: eu odeio esse tipo de livros e acho, sim, que cada vez mais tem pessoas que, por arrogância ou preguiça, publicam suas histórias sem atentar completamente para o mínimo das regras de português, desenvolvimento de enredo e construção de personagem.
Mas, cacete, precisa ser tão chato?
Precisa regular e botar regra no que as pessoas podem ler ou não? Não dá pra simplesmente — como eu, que não vejo graça nisso — não comprar?
“Ah, mas isso passa ideia errada pras crianças, consumismo o escambau”
E? Vocês acham mesmo que é só ali que elas têm acesso a esse tipo de influência? Que tal comprar livros para esse público com uma mensagem legal e dar de presente como um contraponto? Ou, melhor ainda, educar a galerinha mais nova de verdade ao invés de esperar que a internet ou a TV faça isso?
“Não é literatura”.
Desculpem afrontar as madames importantonas com cadeiras na ABL, mas... É sim. Pode ser uma que eu odeio, que eu só compraria pra fazer de peso de papel, pode ser uma mal escrita e cheia de furo, mas nem por isso deixa de ser.
Assim como não gosto de arte abstrata, mas não saio por aí berrando que não é arte; e não suporto funk, mas não fico enchendo o saco de quem ouve falando que não é música; o que custa a gente entender que formas diferentes de escrita e mais pop são literatura também?
“AI, QUE LIXO”
Se você precisa xingar e desmerecer o trabalho dos outros com palavras nesse naipe (“lixo, chorume, câncer”) só porque não gosta, faça um favor a nós dois: clica no X ali em cima.
Por mais que a gente não goste e tenha o direito de criticar as coisas, não custa nada tecer comentários com sentido, mostrando porque algo é ruim e precisa ser melhorado, respeitando o trabalho de quem fez (mesmo que a gente não suporte) e, também, o público que pode se identificar com aquilo.
Aqui, vou sair totalmente da problemática “livro de Youtuber” e me focar também em quem critica gêneros inteiros apenas pela popularidade (especialmente romance, hot e fantasia): galera pega um livro que não gostou e generaliza todo o gênero. Ou mesmo que tenha lido bastante coisa e não gostado, não sabe expor esse “não gostar” de forma madura.
Nunca tem um “não gosto de estilo x porque não combina com minha realidade, não me atrai, não me desperta interesse, porque ultimamente algumas histórias estão mostrando mensagens que não considero positivas” etc.
Não.
Precisa dizer que é tudo um lixo, uma merda, não serve nem pra limpar nossa região glútea (vou tentar ser educada uma vez apenas nesse post rs). Precisa depreciar os fãs, chamar todo mundo que curte romance de “dependentes de outras pessoas e incapazes de serem felizes sozinhos”, quem curte hot de “mal comida/o” e quem ama fantasia de “infantis que não conseguem se focar no mundo real”.
Não importa quantos livros desses estilos bem escritos e com boas mensagens a gente coloque na frente deles, vão continuar bradando isso como se fossem um mantra porque na cabeça desses donos do mundo só o gosto deles importa e todo o resto deveria ser destruído. Pegam “ranço” (e eu já estou pegando ranço dessa palavra, veja só que contraditório rs) e xingam todo mundo apenas porque são incapazes de compreender que as pessoas são diferentes e gostam de coisas diferentes.
Mas se você é 100% a favor e tá batendo palminha aí até agora, pode se preparar pra me odiar também. Adorei dois comentários em específico que li na treta supracitada, mas vamos por partes. Quero deixar um disclaimer aqui de que não vou transcrevê-los por não lembrar das palavras exatas e não encontrar o tópico para tirar prints, então vai apenas a ideia central dos posts de cada um.
O primeiro que chamou minha atenção foi o “parem de criticar o Fulano”. POR QUÊ, AMORE? Quem disse que porque algo é literatura, arte, música, etc., tá isento de crítica? Que todo mundo tem que gostar e aplaudir, se não é elitista, taxista, baixista, taxidermista, passista?
Eu acho que qualquer youtuber (ou qualquer outra pessoa) tem todo o direito de escrever um livro sobre qualquer tema e publicar... E eu tenho o de apontar o que acho que não está bom, quando for o caso. De criticar erros de português, falar sobre furos de enredo e personagens, de comentar pontos da mensagem do livro que não achei bacanas ou que foram mal desenvolvidos.
Eu não tiro teu direito de apoiar esse tipo de texto e você não tira o meu de apontar o dedo e escrever uma resenha negativa, por exemplo, dá pra ser?
E agora vamos ao meu preferido: “bom saber que todo mundo começou com Saramago”.
Acho uma graça quem acha que a literatura só tem dois extremos: Larissa Manoela ou Jane Austen. Só Lucas Neto ou Tolstói. Não tem mais ninguém no meio do caminho, você só pode dar pro seu filho um livro do Christian Figueiredo ou Machado de Assis.
Esse é meu preferido porque a pessoa citou logo depois exemplos de bons autores mais recentes (ou não) que quebram o que ela falou palavras antes e mostram que há muitos bons nomes no meio do caminho.
Posso fazer uma lista bem legal, só de cabeça sem olhar em lugar nenhum. J. K. Rowling. Rick Riordan. Dan Brown. Anne Rice. George Martin. Patrick Rothfuss. Harlan Coben. Stephen King. Cassandra Clare. Licia Troisi. Nora Roberts. Agatha Christie.
Isso só pra citar gringos. A lista de pessoas que não se encaixam necessariamente no círculo da alta literatura “OH!’, mas fazem um trabalho maravilhoso e podem ser lidos sem problema nenhum até na escola é imensa.
Não preciso apelar pra youtubers que não tem nem 40 anos, mas já acham que viveram o suficiente pra lançar biografia (PFFF!) e produzem conteúdo mais raso que um pires cheio de água para entreter crianças e adolescentes. Muito menos dar leituras extremamente complexas que muitos adultos não entendem para educar uma criança para a vida.
Muitos livros infanto-juvenis ou mais pop e sem muitas firulas técnicas conquistam pela facilidade em nos fazer ver o mundo com suas cores reais, em nos trazer autoconhecimento e capacidade de lidar com as outras pessoas. Não aprendi a valorizar meus amigos (tanto que passo isso pras minhas histórias) lendo nenhum desses grandes nomes. Foi lendo Rowling mesmo.
Ô SEJE: você não precisa necessariamente de alta literatura para ser uma pessoa melhor, por mais importante que ela seja. Só precisa selecionar melhor suas leituras. Existem entretenimentos altamente construtivos, capazes de nos fazer refletir sobre muitas coisas sem que a gente sequer perceba.
O problema é que as pessoas ficam nessas brigas vazias que não chegam a lugar nenhum e esquecem de focar no que interessa.
Dava para discutir preconceito, manipulação midiática, valorização de amigos e família, importância do autoconhecimento e mais uma porrada de coisas em Harry Potter, mas pessoal fica brigando pra saber a que casa de Hogwarts pertence e zoar os amiguinhos quando o outro ficou em uma que considera ruim.
Em Jogos Vorazes, podemos debater sobre opressão, desigualdade social, a força que o povo tem quando se une contra algo, mas galera ainda tá discutindo sobre com quem a Katniss devia ter terminado: se com o Gale ou o Peeta.
Game of Thrones? Política, xenofobia, jogos de poder, falsidade, importância de família e amigos de novo, preconceitos de inúmeros tipos, uso desmedido de violência e, pasmem!, até questões climáticas e ecológicas, mas HAHAHA YOU KNOW NOTHING, JON SNOW!
As pessoas perdem oportunidades incríveis de observar o todo ao invés das partes, são incapazes de perceber toda a questão de preconceito subjacente à trama de X-Men, por exemplo, e depois ficam nessa de, por um lado, achar que precisa defender qualquer macaco com uma máquina de escrever que, eventualmente, até pode escrever algo que valha a pena só pra não pagar de “cult elitista”; e, de outro, quem acha que a única forma de salvar o mundo é ler Shakespeare e recitar Lord Byron de cabeça.
Vocês todos estão errados. Por quererem descer goela abaixo dos outros seus gostos literários, por desvalorizarem quem escreve sobre o que vocês não gostam, por serem incapazes de descer do pedestal e reconhecer que todo mundo tem o direito de escrever sobre o que quiser ou ler o que quiser e tecer críticas fundamentadas quando achar necessário.
Mas principalmente porque preferem sentar a bunda na cadeira e pegar briga com desconhecidos na internet ao invés de irem estudar e praticar, de irem escrever algo e contribuírem de verdade com uma história que valha a pena ser lida e não precise dizer na cara do leitor “OLHA, A REALIDADE É UMA MERDA, ACORDA” porque isso já vai estar nas entrelinhas.
A literatura não vai acabar porque tem livro de selfies da Kim Kardashian e o autor Fulaninho de Tal não vai se jogar da ponte porque alguém disse “muito legal seu texto, mas precisa começar essa frase maiúscula” (no máximo, dar chilique, mas isso a gente resolve ignorando).
Menos!
Não precisa tanto drama e tanto choro, especialmente quando isso não vão resolver nada. Se acha que a literatura está mal, incentive quem acha que escreve bem e passe reto de quem julga que está contribuindo para isso ou critique de forma embasada, indicando porque você acha tal coisa e como outras pessoas podem não cometer esse erro. Chamar alguém de “lixo” diz mais sobre você do que sobre a pessoa.
E se você acha que está tudo ok e gosta desse tipo de coisa, compre, leia, presenteie, seja feliz. Só não seja insuportável e queira que todo mundo pense igual e bata palminha pra isso só pra não ficar de fora e pagar de “careta” (alguém ainda usa essa palavra? Help! Hahah).
E por último: ao invés de brigar, escreva. Deus tá vendo esse monte de história parada aí pela metade enquanto você passa a tarde inteira xingando o amiguinho que nem conhece.
Até o próximo domingo e deixe de ser chato

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